Gerardo Mello Mourão Cantor de cântaros Cantor de cântaros escande no cântaro a cantárida do canto cantaria de cântico cantor cantar cantata cantaria canteiro de cantares ora oleiro oleiro de canções à ternura do barro torneava falus e ao moinho do ventre as raparigas trituravam cantando o doce oleiro e o pó, Polymnia, pólen do oleiro cantador entre as violas das fêmeas entre a cintura da terra pênis de barro Orfeu de barro no teu ventre pó, Polymnia, pólen súbito flor no cântaro se esconde e escande pela pele da Musa pela pedra canta: canteiro de cantares cantaria de espuma labirinto de âmbar por terra matinal por mar salgado por inefável seio de Lisboa por Goa e Madragoa e Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho e ali e aqui começa o labirinto de Gerardo. De Lisboa por Goa e Madragoa peripécia de Vasco, Pedro e Manuel Diogo Cão e Antônio Cão mais a matilha toda dos mastins do mar farejavam as águas de onde morde à tona dos sargaços lamber a tua verde mão terra de aurora pois te cerca e me cerca a aurora com suas coisas: e são coisas da aurora a estrela morredoura a nascedoura rosa e sob o azul azul do céu o boi mijando fervoroso no curral o relincho do cavalo erecto sobre as ancas da égua estas são - parece - coisas da aurora e a aurora é coisa minha. E era uma vez em Sagres um Infante e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro e de uns sabeis e de outros sabem o mar salgado e os sabedores de água e ventos velas gáveas caravelas e quartos d'alva e solidões e estrelas: Martini e Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho de Lisboa por Goa e Madragoa. E era uma vez o teu cantor: quem sabe deste infante? a coronha do rifle o percorrido mapa e um promontório de ouro - ó musgos de Isabela - e esses musgos de fêmea são coisa minha só tenho as minhas coisas, e as minhas coisas são o cavalo a égua o touro o bode o rifle esta dama de copas este gibão de couro e a rosa que te colho: e essas coisas trabalho e também a viola e o mapa-mundi. Dos outros sabe o mar mas deste infante sabem tua cintura fina a farejada flor a noite a aurora e essas coisas da aurora coisas minhas peripécia e labirinto de Gerardo. Gerardo Mello Mourão Tu me pediste noticias da Grécia: Tu me pediste noticias da Grécia: de Lisboa por Goa e Madragoa e Itamaracá me fui partindo e, pois, já tenho algumas noticias da Grécia e escrevo entre a mulher da bela cintura dos olhos verdes e o mar: por mar chegadas, por mar envio as notícias da Grécia; redijo em alto mar entre a madrugada jônia e a madrugada de Maragogi - sudeste do país dos Mourões. E eras uma vez: da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo vinhas e ao vinho o pé arisco - de corda em corda a pisar na cítara e em teu andar notícias recentes da Grécia: muitos corpos foram assados e o cheiro da cútis das vítimas de fina raça subiu das brasas e a fumaça odorífera e a labareda e as libações embriagavam os belos mancebos vindimados; e era uma vez Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia corda a corda das notícias da Grécia: aguardo informes: - aplacara a hecatombe o deus irado ou, vagabundo passeia Apolo pelos bosques de aljava a tiracolo? Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália talvez Ilíria; respirei quanto pude a violeta divina vem o vento dos montes e à essência das rosas maceradas amadurecem-me as narinas sábias: tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro dos navegantes. E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam a imagem de São Gonçalo e foi trazida para casa e louvada em cânticos e ladainhas e na manhã seguinte a divina creatura era de novo achada ao pé da mesma palmeira e foi trazida para casa e louvada em cânticos e ladainhas e no terceiro dia - fugira durante a noite - voltou à sua palmeira e Dona Úrsula Mourão, mais os homens e as outras mulheres e as crianças foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada e em duas medidas de sua sombra riscaram um retângulo e ergueram uma capela e onde era seu tronco é hoje o altar de São Gonçalo dos Mourões e estas são notícias da Grécia: respirei fundo a violeta divina de Tênedos a Delfos e guardei a palmeira nos olhos e o templo na serra; e era uma vez na ilha flutuante uma palmeira uma palmeira em Delos e ali soprou Apolo a flauta e desde então se fez estável a ilha imóvel Delos por pisá-la um Deus: e era macho e belo e tangia também uma cítara de ouro e do arco de prata a flecha disputava ao relâmpago alvo e risco no céu; e sobre a pele da serpente na trípode sagrada uma virgem fundou o lábio imaculado de conceber o oráculo: o divino pênis aquecido na boca a sacra Pítia da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido a palavra profética: - 'E AEYOEPÍA e na boca das virgens e no ventre das ninfas a semente fecunda e à sua volta - e à sua cítara as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses e os rapazes aprendiam o poder dos deuses e os adolescentes mortos tornavam à vida e a vida era fundada à sua volta e à sua citara; e era fundada a morte à volta de seu arco de prata - e os outros deuses o expulsaram do Olimpo - estas são notícias da Grécia: de erguer-se o canto, toda voz se apaga e as ilhas cessam de flutuar e os deuses invejavam os carneiros e os pastores tangidos pelos montes da Tessália à lira de ouro. E ao seu acorde em pétala e aroma a bem-amada abria o coração do heliotrópio e o rosto do adolescente - amor alheio à vida e à morte - nas folhas do jacinto doloria e à mera melodia iam surgindo o loureiro, a romã, o girassol e o mirto e o zimbro e o lotus e o galo e o gavião e o cisne e a cigarra e o grifo e era a palmeira e à sombra dela a invenção do santo e as ladainhas de Dona Úrsula Mourão; estas são, amor, as notícias da Grécia e eu recebi no mar: ao sul a palmeira de Delos e ao norte as palmeiras - Camaragibe e Ibiapaba, Pais dos Mourões - lá onde a vida aguça a seta nas aljavas de prata e a morte se canta à lua-cheia na viola na cítara de Apolo adolescente. Tenho notícias da Grécia, algumas: notícias para a tua cintura pequena e os calcanhares o chão dos deuses exilados e lembranças de um deus: no exílio, de seu canto se sustentava e ao canto - sustento dos deuses e perigo dos deuses - floresciam os homens e o rei Midas foi punido e em sua própria frauta soprou Mársyas sua própria morte; e ao canto - ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! - por auroras e noites perigosas tenho notícias da Grécia - algumas - da corte de Admeto na Tessália da cor das águas ao redor das Cícladas das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos, do vôo do gavião no ar da tarde do poeta caldeu na noite de Poséidon dessa relva curvada à brisa do Parnaso Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção e uma taberna e o vinho e a inocência e o espanto de Hiacinto e o zéfiro da morte em meus cabelos. Ao terror da delícia os olhos brilham pisa a planta dos pés a palmilha de pedra rastro incandescente de um deus: quem sou eu que te trago as notícias da Grécia - algumas -? o doce filho da raça dos Mourões - país de para lá da linha do Equador onde o pecado não é e os homens são machos e as mulheres fêmeas - onde à sombra das palmeiras e em seus troncos aparecem os deuses e seus santos. Vem, formosa mulher, camélia pálida, que banharam de luz as alvoradas na concha de tuas mãos a água verde flauta diáfana de água à pétala do lábio estremecia e desmanchada ao canto - ao canto a água sugeria de novo o gomo verde a flauta diáfana de água ao milagre dos dedos e do sopro: bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia e eras jônica e coríntia, às vezes dórica em teus quadris eólios tua concha à relva eólia à pétala do lábio estremecia e era a melodia de tuas flautas escondidas: começara no golfo de teus olhos a viagem ao verde mar por onde a lua esverdeara a lua de mel dos cabelos de Helena à espuma do desvairado amor: e estas são notícias da Grécia e um deus tangia cítaras e ovelhas e os homens jurados à beleza domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra orvalhada de sangue dos guerreiros - um deus anunciava a vida e a morte por amor do amor e anunciava a vida e a morte e os machos do país dos Mourões. Pois o Major Galdino, meu avô, cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes e ao fim da tarde e ao nascer da manhã no alto do pé de tamarindo pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela ou galo-de-campina de cabeça de púrpura ou juriti arrulhadora: e da copa das cajaranas de ouro o outro galo-de-campina - a outra juriti - vinha aprender a banda de laranja a talhada de melão o arroz a água do pequeno alguidar de barro e o canto solitário entre as varetas de bambu - e logo eram duas gargantas a cantar e era aos ouvidos do risonho Major um canto novo - e tu, pássara chamadora, ao furo de meu punhal na taquara a flauta pura ao céu azul irás sorvendo soprada em sopro novo a velha canção que cantavam as pássaras de amor no Tamboril em sopro novo a velha moda que cantavam os machos à janela das fêmeas no país dos Mourões. há uma raça dos homens e uma raça dos deuses e a raça dos que tocam pelos bosques dos homens a música dos deuses: estas são as notícias da Grécia as notícias que tenho da Grécia e levo para a Grécia e sou o primeiro a levar para a Grécia carregando no céu da boca o gosto de teu nome e no ritmo do andar o peso de teu corpo de tua cintura pequena Gerardo Mello Mourão Tornei ao bergantim Tornei ao bergantim com muita caça e mel, de Mel Redondo e mandei meter os remos e fui-me às ilhas: corri-as todas e nunca achei porto nem abrigo em que me meter na mais pequena achei repairo do vento sueste era desabrigada ali estive fazendo pescaria mandei consertar a padeirada do bergantim e pôr a artelheria em ordem e irmos concertados por pelejar: pois na terra eram fumos - sinal de ajuntamento de gente Gonçalo Mourão, de Novas Russas, fiscalizava os hinos e um Mello, de Tauá, lia colcheias na partitura que Iracema Mourão cantava na proa à onda rugidora demos à terra e no alpendre de seu engenho aloeste da Chá do Pilar na Chá do Mundaú estrugia sobre os canaviais os cabras e as vacas mugidouras o trom de sua voz o velho Oiticica de Alagoas do vigor do peito o eco fálico seguiu por outros mares outras ilhas dei a uma delas, cheia de arboredo, por lagos de Granada em Nicarágua com um Silva, Fernando Silva poeta e bebedor de guaro e outra Martín García - diz Varnhagen - em teu país, Raul, a que chamei um dia Santana do Mundaú: aqui estive toda noite com Jerônimo e Jarmelino matei muito pescado de outra raça que em Portugal peixes da altura de um homem amarelos e outros pretos com pintas vermelhas os mais saborosos do mundo assados na areia. Saí em terra - nesta ilha achei muitas aves as mais fermosas que nunca vi - aqui vi falcões como os de Portugal o vento saltou ao sul - saltei da banda do norte da ilha muita tempestade achava de todo nos perdêramos tornei por onde viéramos a água corria mui tesa para baixo doze braças de lama mole e um rio faz entrada leste-oeste da banda do sul à boca dele um esteiro pequeno então vi que tudo eram braços e ilhas entre que andávamos e às vezes do quarto da modorra teus braços olorosos a punhos iracundos jogava o mar e aos monstros do promontório de onde escorrem raposos aliomares portelas e batistas baba fétida. Vamos remando rio arriba contra o querer do rio eram tantas as bocas dos rios que nem sabia por onde ia senão que ia pela água arriba: fez-se noite a par de duas ilhas pequenas onde surgi e sempre rios: um braço ia ao norte um braço aloeste e não sabia onde donde por onde para onde quando comecei a achar as ilhas com muitos arvoredos e frechos e outras mui fermosas arbres arvas e flores como as de Portugal e outras diferentes - muitas avas e garças e abatardas - e eram tantas aves que com paus as matávamos quão fermosa a terra delas: na achada Marajó perdido à noite entre rebanhos de estrelas e búfalos e garças caí do céu - e era formosa a terra atônita - formoso o sírio atônito no Amazonas verde o negro capitão atônito - um certo Muniz no avião perdido: "crê em Deus, senhor poeta?" E o poeta crê sobre seu chão coisa creada coisa increada a garça o búfalo o anjo o salmo e o doce rei viril na estrela da pupila: "eu vejo, Capitão". Depois achei muitos corvos marinhos matei deles à béstia adiante meia-légua me anoiteceu surgia a par de umas árvores onde estive noites contigo - eras ali formosa como a terra e a terra - conta Pero - era a mais fermosa que os homens viram toda cheia de flores e o feno da altura de um homem e eu te pastei em nuca e cona o feno e a flor. Iam uns fumos longe rio arriba me anoiteceu donde os faziam: de noite nos deu rebate uma onça cuidei ser gente saí em terra com toda a gente armada tornei pelos outros braços arriba dormir às duas ilhas dos corvos onde Neiva e Nelson e João e um Marcelo granadeiro e ali grasnavam e fediam de castelos de merda raposos baleeiros e um súcubo em portelas de lama: guiou-me a estrela e fui dormir da banda daloeste debaixo de uns frechos barraca de Frassinetti e um Silva poeta e umas putas de agasalho em Cuiabá Carrancas do Paraguai e de noite matamos quatro veados na fronteira raposos e batistas e portelas "estão podres - disse Luís - aos corvos" e não comemos. olvido Ayala Maria del Olvido Ayala inolvidava a noite paraguaia quando as águas gemiam a guarânia do Paraná bravo ao Paranaguaçu e bem à boca do esteiro colocara Pero dois padrões de armas del Rei: sem rei nem lei nem grei tomei posse da terra do rio dos Beguais ao Araguaia e do Araguaia ao Solimões tomei a altura do sol e era no ninho de ouro, Marisa Ocampo lindado em terra argentina ninho de ouro ninho de estrela em tuas coxas. E noutra ilha eram alemães italianos japoneses e homens que foram à India e franceses: "che crespúscolo! che crepúscolo" - Napoleão - exclamava Arrigone no mar de Ilhéus "perdão, io sono fiorentino" e Nicanor Parra em Arica cantava a cueca larga a essa memorável Catalina Parra - e todos eram espantados da formosura desta terra começo apenas de teus pés de onde à bússola pasmada o poeta espantado de tua formosura pergunta a tua estrela o espanto de tua formosura: em material de estrela o dedo encandecido na página do chão do céu do mar e a gaivota e a garça e o búfalo te constelam amada boreal. Gerardo Mello Mourão Com o sol em onze graus e trinta e cinco meúdos Com o sol em onze graus e trinta e cinco meúdos de Sagitário e a lua em vinte e sete graus de Tauro parti do rio dos Beguais: de graus de Capricórnio a graus de Aquário venho caminhei caminho que se corre aloeste Cabo das Tormentas Cabo Não levava um bergantim com trinta homens em pé de guerra e era uma ilha e nela surgidouro de cinco braças de vasa mole descobri um alto monte a que chamei São Pedro ao pé do dito monte de São Pedro assei dois bodes degolados com água do mar salguei e assados lhes comi os colhões e ao pé um monte não São Pedro monte de Vênus quarto da prima reclinada a cabeça fui dormir e é tudo formosura neste monte aí me tens aqui me posso estar aqui comecei de achar água doce e doce ar na doce dor de caçar o cansaço no quarto da modorra. E havia muitas perdizes e codornizes e outra muita caça - e até fartar comi a perdiz e a condorniz assada: da terra não me fartei - a terra é a mais formosa e aprazível que jamais cuidei não havia homem que se fartasse de ver de olhar os campos e a formosura deles terras do Ceará e Mel Redondo as terras fêmeas e os cerrados machos e os canaviais, Pernambuco, os teus e as tuas colinas, Alagoas, de lagoas e coqueiros e teu campos, Miguel Marcondes, entrando pelos pulmões ao vento matinal de Ponta Porã Dourados Serra do Amambaí - ali o Paraguai - e bebe-os Joaquim ainda temperados ao sal marinho de Botafooo e ao cheiro da pólvora dos clavinotes de Generoso Ponce na guerrilha de Mato-Grosso - e canto as terras guerrilheiras os cabras morenos bebendo sangue no Raso da Catarina, Nertan, e o cadáver de Antônio Conselheiro espantando um exército com suas tripas abertas e sua cruz e seu rosário e seu trabuco e Saldanha da Gama arcabuzado e as degolações dos gaúchos - 1893-1895 o Barão de Serro Largo matado a machadinha e as matanças do Desterro Moreira César Canudos Contestado Firmino de Paulo desenterrou o cadáver do guerrilheiro Gumercindo Saraiva: "as orelhas são minhas" - diz o General Rodrigues Lima em altos brados - e um major separa a cabeça do tronco e o capitão-do-mato, Abdias, entrando , com seus cavalos no povoado mineiro e uma fileira de quatrocentas e oitenta orelhas de negros escravos penduradas nas cangalhas e Pinto Madeira bacamarteado sem apelo nem agravo Pois canto a terra e canto esses que foram plantados nela um Pereira, de Pajeú de Flores, um Lopes, de Várzea Formosa e Maria, chamada Maria Bonita, a beleza de seu rosto degolado ao lado de seu macho e capitão: são o nosso caroço na cova do chão - e aguardo sua flor e seu fruto, Clodomir, nas catas altas de Minas Gerais, Hélio, talvez talvez em teus planaltos, Salvador Romano, Piratininga nossa, de teus campos Campos dos Goitacazes de Adão. Um dia pela manhã vai se alimpar o tempo e o bergantim nos leva, Pero Lopes, do tenebroso mar aos rios de água doce e em suas praias vamos beber nossas pipas de vinho e as ancoretas de aguardente e comer os colhões assados dos bodes e os ovos de emas e alcatra dos veados caçados e afrouxar os cinturões e arrotar ao sol da tarde. Gerardo Mello Mourão Estou com gosto de sangue na boca - disse Estou com gosto de sangue na boca - disse Benedito, da raça dos Torres - passamos todos a língua nos beiços e ninguém disse mais uma palavra e os cavalos reiúnos sumiram na poeira do Bebedouro - e tenho sempre esse gosto de sangue na boca e esse gosto de teu seio Sandra - e as éguas adolescentes desaparecem na praia rebolando as ancas e eu creio nelas - creio em Deus Padre e creio no rifle papo-amarelo e creio no mar salgado e creio na relva negra de teu triângulo, Sandra, e as irmãs mais velhas nos entregavam as irmãs mais moças e as mães ofereciam as filhas e este foi o festim de amor de Luciana, filha de Dolores e de Susana, filha de Raquel e de Joana, irmã de Marilu and other females endin.g in ana e um dia o caboclo Otacílio procurou o coronel e queíxou-se: Amaro Florindo lhe desonrara a filha no caminho do Pilar e recusava casar-se e Amaro Florindo recebeu para ser cumprida a ordem do Coronel: pagasse o que devia à rapariga e durante dois anos certo de estar a moça casada o Coronel não vira mais a Otacílio - um dia apareceu e perguntado da sorte da filha da casada: "Coronel, pois não casou" irado e poderoso levantou-se " e a minha ordem a Amaro Florindo?" "Nós somos pobres, sabe Vossa Mercê, e ele me deu quinhentos mil réis pela honra dela" a voz do Coronel se fez macia: "e você ainda tem filha moça em casa?" "Duas, seu Coronel" e súbito, de novo, a poderosa voz: "Mariana, traga depressa uma nota de um conto de réis e mande selar meu alazão". E a honra dos machos e das fêmeas galopava à garupa de nossos cavalos e voltam sempre à boca esse gosto de sangue e esse gosto de fêmea e volta sempre ao coração a pura fé e creio em Deus Padre e creio no rifle papo-amarelo creio no mar salgado e creio em teu triângulo e ali guarda em teu ventre guarda amor, em tua sepultura a raça dos Mourões e não me engula o mar salgado a negra nau a caminho de Delos a caminho da de seio alvo e de cintura fina a há de passar do lombo de seu touro à sua coxa pétala à flor de seu umbigo à flor de sua flor: e aprendi a arte de pisar a flor pisa na fulô ai pisa na fulô não machuca meu amô e nem a brisa de teu sorriso apague o rastro de meu pé: por ali caminhei, Kyrina, Angela derelicta Laura calipígia por ali, Mylène, banhado nuns olhos verdes a caminho de ti, Sandra de Almeida, caminho montes de Vênus montes da Tessália e em tudo tenho parte: no cheiro de tuas virilhas e na morte de Robel - Robel morreu como matava: quatro tiros na madrugada vide "Gazeta de Notícias" Roberto Gomes Diamantino, o Robel, chefe de quadrilha durante anos foi o terror de Madureira e adjacências e foi encontrado morto de madrugada na rua Alcobaça com quatro tiros no peito e o principal suspeito da morte de Robel é Osvaldo 32, assim chamado só usava revólver 32 e Robel matara Valdecir, vulgo Viola, comparsa de seu bando Viola lhe proibira namorasse a irmã e com a morte de Robel, aos 19 anos, assume o comando o matador Paraíba chamado Salústio ou Salustiano em Campina Grande e Guarabira e Paraíba era temido pelo próprio Robel vide "Gazeta de Notícias" e nunca se defrontaram para acerto de contas: tenho contas a acertar com Robel e Viola e Paraíba incidentes da viagem a caminho da Grécia onde Isabel e as outras assistiram o poeta perder-se e achar-se e adivinhar não há mais de um caminho para a Grécia e passa pela estrela de teu ventre e a bússola de um punhal do Cariri e água e fogo e ar no chão da Vila do Ingá do Bacamarte risquei no coração cartógrafo balisa natural ao norte avulta o das águas gigante caudaloso e no chão a alpercata de Apolo, Godo, e nas ondas o galeão de Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho. Gerardo Mello Mourão Caminho ao longo da costa Caminho ao longo da costa sondando sempre governando dois relógios aloessudoeste achava vinte braças governando outros dois aloeste vinte e cinco braças dava em fundo: governador dos relógios dispõe o coração, amor, a hora tua e as horas todas do quadrante horas de todos os quartos Dalva prima e modorra e são todas as horas o caminho da tua quando o nordeste despenteia as algas a julavento de tuas coxas. Assim é o mar: súbito me salta um pé-de-vento sulsudoeste ao sul com tempestade muita e o mar mui grande e grosso quinze braças de fundo de lama mole: não me atrevi fazer à vela e à quarta do sudeste mandei fazer um aúste de cento e vinte braças tamanha era a tormenta e a nau metia todos os castelos perguntado o prumo respondeu teu nome sob as ondas e vou caçando as léguas e parece o mar mais alto do que a gávea quebra-se o aúste da âncora e me faço ainda à vela contra rezam de marinheiraria e quando fui varar na praia e pareceu-me podia cobrar terra quebra-se o traquete em dois pedaços e a ponta demorava a lessudoeste: a uns parecia cobrá-la - outros bradavam que arribássemos era tão grande revolta pela nau - que nos não entendíamos: mandei meter toda a gente na coberta o piloto tomar o prumo e eu me fui à proa e determinei fazer experiência da fortuna porque se não dobrava a ponta não havia onda varar senão em rocha viva onde não havia salvação: e prouve a Nossa Senhora e ao seu bento filho que a dobramos - e à madrugada surgias entre riso e prantos no galeão de Jânio e Pellegrino e quem soubera, amor, se nos partimos a mar mais alto a caravela errante sem cabres sem batel sem âncora, pois diz o piloto que vamos à fortuna contra rezam de marinheiraria. Ruim o mar: meti na caravela os que melhor sabiam nadar as armas metidas em uma pipa funda por se não molharem dois barris de mantimentos para oito dias e mandei à caravela que se fosse à terra e surgisse quando não desse seco e dali se fosse nas jangadas que levavam da nau francesa: Michelle, aliás Andrée, Michelle Taillandier Dolly, Annie, Janine, Claude talvez - quem sabe Sylvianne aos olhos ouros de Ginette em quartel das ancas entre a nau francesa flutuavam no mar e ao mar do boulevard, Anne, Anne-Marie Aribeau asselvajava os seios à memória dos ventos negros do Senegal: pisei a terra com assaz trabalho e pereceram muitos e eram lancinantes os olhos do Senador Jucá assobiando a toada à interminável noite: - vem, doce morte - e a morte veio o adeus na carta emburilhada em perfumes ce soir ou jamais - outros morreram afogados outros de bala e um que morreu de pasmo: de pasmo, Godo, continuamos vivos no bergantim de taboado de cedro e é pasmo estarmos vivos entre tantos mortos: de que morreram tantos? Talvez Francisco de inocência o Capitão de seu vigor Geraldino da loucura de flechas de Eros Magdalena Maria Helena aquela noite Edgar de um tiro de quarenta e cinco e de cansaço o Senador Pederneiras por seu whisky Pedro por cerimônia Bráulio por cumprimento morreu Clarice de volúpia pura e em grande mar de mortos navegamos trincando o vento até meia-noite e um dia será dia de mortos como todo dia e João e Bernardo e Clara e os meus e os teus, Efraín se lembrarão de nós então no grosso mar onde navegam saudosos bergantins a ventos memoráveis: na selva de Berrueco o libertador arcabuzado Che Guevara com sua dália de sangue no coração o filho de Amaralina em mar de asfalto Camilo com sua cruz e seu fuzil boiamos entre os mortos Clodomir e boiam na espuma cravos de defuntos. Quem sabe um dia, de chapéu na mão a saudação galante e antiga repitamos: "perdão, Senhora Dona Morte, por chegar tão tarde". Nessa estrada paulista a que horas, Vicente, teu relógio parou? Sabedor de amantes bem sabia hoje a doçura das amantes cruéis hoje a crueldade das amantes doces e quem achara a verdadeira a que de amor se nutre - quem achara a imolada imoladora rosa do cantor rosa do bêbado: a melodia de seu corpo ouvi e no caminho da Grécia o poeta voltou por ela as costas à condessa da Itália a melodia de seu corpo ouvi capaz só ela de o sonoro corpo o canto pleno ressoar quando os cinco sentidos peçam morte morte peçam vida vida. Para isto sou vindo aprendiz da morte aprendiz da ressurreição da carne. E uma noite tomou o Capitão conselho com os pilotos: não se podia ir pelo rio de Santa Maria Arriba os mantimentos se perderam as naus estavam gastadas e o rio era inavegável: era a força do verão e o verão podia mais que a primavera: mandou-me o Capitão pôr uns padrões tomar posse do rio em nome del Rei Nosso Senhor: e contra a força do verão sem mantimento em nau gastada por rio inavegável em nome teu, amor, hei fincado padrões portos adentro portos afora e o meu padrão entre peluda relva na terra de teu ventre memorável. Vinte semanas por tornar trabalhou Pero e de seus bagos venho quarenta anos trabalho por não tornar de ti desde a infância de Carmen Neyde Araci e Teresa, filha de Damiana, puta da beira do rio e todas caminho de teu caminho, Liberdade, amor de amar até à morte. Gerardo Mello Mourão Tomei o sol em trinta e dois graus e um terço Tomei o sol em trinta e dois graus e um terço com um pé-de-vento do norte, árbore seca um dos bergantins não aparecia - dei um calabrete por popa pois não podia com a vela grande era o mar, com papafigos baixos fazia-me da terra vinte léguas do cabo da terra alta me fazia cinqüenta e quantas quantas, amor, de teus dourados promontórios quantas quantas da sepultura onde cresceram de teus olhos verdes relvas. E até quando as naus em pairo? O grande mar nos vem ter ao convés e meteu-me dois quartéis para dentro: entrou tanta água que entrambas as cobertas me nadou o batel: arribamos alagados até o quarto da modorra e andava o mar de sudoeste com o nordeste - cruzavam, que não havia homem que se nas naus tivesse: na terra, Luís, tanta guerra, tanto engano tanta necessidade aborrecida, no mar tanta tormenta tanto dano tantas vezes a morte apercebida no ar tanto fedor tanto mau hálito tanto raposo tanto aliomar tanta chuva de merda de um castelo de merda e esgoto roto descarrega resíduos de sarmentos podres portelas de Caronte e anabatistas energúmenos convocando a tríade de súcubos que devoram semente humana: mas em vão - que além as serras que azulam no horizonte, Alexandre, estão semeadas de Mourões e os caminhos da Grécia semeados de Mourões e não morre Pero e de seus bagos venho da raça dos que descobrem o mundo e há uma raça dos deuses e uma raça dos homens e a raça dos que caminham entre os deuses e os homens de serras da Ibiapaba a montes da Tessália e sabe de Odisseu trincar as águas com traquetes limpos no bordo sagaz de sulsueste e naus ao pairo - e o vento se faz bonança, Godo, e vimos da gávea ao noroeste um fumo lançar a sonda e demandar o fundo e ao sol da primavera a bordo de Miguel e sua gaivota - e de uma vinha no mar coroados de pâmpano bebemos à saúde do Aconcágua e saudamos o Aconcágua e depois da tormenta é o quarto da prima é o quarto d'alva é o quarto da rosa e a terra é mui formosa ribeiros de água negra seus cabelos e muitas hervas e flores como as de Portugal e das rosas de vinho e do vinho das vinhas do mar somos os grandes bêbados cantando a canção incessante e da voz repetida repetem-se rapazes raparigas e o chão floresce e a caminho da ribeira da Grécia pelas ribeiras de Jaguaribe e Mel Redondo a Musa arrendonda as ancas caminhando e caminhar caminhando é meu destino, Alberto, estafeta de um Deus trago notícias - algumas - da Grécia. Gerardo Mello Mourão Todos os navios que forem ao Maranhão e Pará Todos os navios que forem ao Maranhão e Pará lhes será forçado hir a reconhecer as terras do Ceará ali é terra de barro bom pra homem e ali nasceram José, Francisco, Antônio e Josué e ali é o país dos Mourões e do seu chão touro e jacinto - e por ali é o caminho da Grécia e eu inventei o caminho da Grécia na serra de São Gonçalo dos Mourões e fui o primeiro a inventar o caminho da Grécia e sempre que me perdi me perdi no caminho da Grécia, amada, e sempre que me inventei me inventei no caminho da Grécia e esta é a alpercata de Apolo, Godo, e este é o lombo do touro e tu és a de cintura fina e a terra tem muito sal de salinas, muita abundância de ostras no mar muitos mariscos lagostas muita caça boa ao arcabuz muito pau de tinta amarela a que chamam tatagiba e outro pau de madeira preta de muito valor muitos algodões mais de quarenta léguas ao redor de si muitas frutas as melhores do Brasil como são cajus e mangabas que sustentam os índios e fazem casal mais de três pipas de vinho do próprio caju fraldas de serra e várzeas para cana as cavalgaduras se dão grandemente e os franceses carregavam quantidades de terra para a França: venho buscá-las e os gringos estão levando para Massachussets a minha terra com o sangue e os ossos de meu pai: sobre o lombo do touro, Mestre Adão, com Clodomir e Célia vamos buscá-la. Ressuscita o homem moreno de Amaralina, companheiro, vamos buscá-la: com o negro Henrique de pouca letra e muita espada com Maria e as mulheres e as crianças com Anita Garibaldi vamos buscá-la com um terço de Feitosas e Mellos e Mourões da Canabrava a ferro e fogo vamos buscá-la a frecha de Iracema e de Poti aljava e lira a tiracolo, Apolo, vamos buscá-la: são os ossos, Clodomir, de teu pai - os ossos de José Ribeiro Mello de Francisco Mourão e dos outros os ossos da velha Úrsula Mourão, da Canabrava dos Mourões vamos buscá-la - é o chão sagrado onde crescem as palmeiras e os santos aparecem com Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho com o vaqueiro de Santa Maria dos Mourões com o cantador da feira de Águas Belas com o compadre Jarmelino vamos buscá-la e plantar no seu barro uma bandeira feita de material de aurora: Gerardo Mello Mourão Coaracy - te lembras? - Coaracy Gentil Nunes Coaracy - te lembras? - Coaracy Gentil Nunes irmão de Janary, Pauxy e Amaury and other names ending in y: viajávamos deitados no chão de ferro do velho avião de guerra americano e bebíamos no gargalo o áspero whisky contrabandeado da Guiana Old Smuggler, Long John, Red Label and other colour labels com o capitão-dos-portos de Macapá onde eram o rumor dos goles na guela e o estrondo do Amazonas no mar: as caboclas do Território dançavam com Coaracy, deputado federal galante e bom e todas pediam: - "Cora, dance agora uma valsa comigo" - e Cora - Coaracy Gentil Nunes dançava e dançou até à madrugada e o filho dos Mourões - Mourão banhou-se no rio barrento com as duas índias de selvagens peitos e as sibilantes cascavéis celebravam o cio entre os crótons e o Capitão dos Portos e o geólogo belga gargalhavam bêbados enquanto o Tenente Garcia, boliviano exilado, saudava a tiros de pistola os corpos nus tremendo na barranca onde jogavam patéticos a vida: e o amor era mais forte ao desafio da morte sibilada nos crótalos à aurora dos guizos do Equador. "Mourão - dizia Coaracy - este é o marco zero da linha do Equador e aqui começa o país de Capricórnio" - e era ali o crótalo da aurora - e do banho do Amazonas pus o corpo a banhar-se na aurora do Equador e no terror dos crótalos ao perigoso amor. E agora, Tétis, quem irá golpear o invulnerável corpo banhado inteiro aos crótalos da aurora do Equador? E que não saberia do alvo que restou, Aquileus, e não lavado, pois pousa nele ainda o calcanhar de um deus - da Musa? - e mergulhado no sangue dos Mourões nas lágrimas da amada o coração envolto em casca de amor em pele de saudade o carpo de seu fruto oferece à pontaria hoje do deus de arco de prata: e sirvo para o amor e sirvo para a morte e sirvo formas de amor seios triângulos de onde os ventres se alisam, sirvo teus olhos verdes que me servem nos serviços da morte em que me empenho - nos serviços de Afrodite e de Perséfone. Naquele dia viajávamos ao sul do Oiapoque no pequeno Beechcraft do Governador e o boliviano exclamou: "vamos todos morir, carajo!" e aqui estou e não se enxuga no corpo invulnerável, Tétis, esse banho dos crótalos da aurora do Equador e voltávamos sem Cora, Coaracy, no velho avião Junker de Muniz, capitão negro e nos despencamos do céu sobre as matas amazônicas e pálidos e incólumes sorrimos entre rebanhos de garças de Arari e búfalos de Marajó e em sua casa flutuante sobre o rio o velho sírio Abdala possuía o segredo de marcar encontro com o milagre e marcou ao ritmo das águas do rio a montaria do missionário descia na corrente e a morte serena ia abrangendo o rosto maronita de Abdala e Cora - Coaracy - deputado federal galante e bom, não se banhara ao crótalo da aurora - não trazia o corpo invulnerável: espedaçou-se no Beechcraft explodido todos muertos, carajo! e nunca mais no marco do Equador a noite do Território nunca mais há de ouvir na carnuda boca das caboclas se juntar a seu nome convite à valsa. Gerardo Mello Mourão Indo nós para as náus nos deu Indo nós para as náus nos deu por riba da ilha um pé de vento tão quente não parecia senão fogo ficamos todos mui espantados daquele vento: fomos todos com febre e na garupa do cavalo do Capitão meu avô o suor do cavalo e o suor do Capitão e o cheiro forte das folhas e o clangor das arapongas na ladeira da Água-Fria e no engenho Cadoz disse o Capitão: Compadre, este menino está com febre - e até hoje - a náu capitânia foi de todo perdida caiu-lhe o cabre - navego o mar a febre o chão de folhas verdes e o canto das arapongas clangorosas fiz graus perdidos e com o fio da Parca se cobravam- alcovas ao labirinto trovoada seca de essudoeste e mui gram vento e não havia homem que lhe tivesse o rosto ia dar sôbela ilha não saltara súbito o vento: uma ilha - e quis Nossa Senhora e a bemaventurada Santa Clara cujo dia era que alimpou a névoa e reconhecemos: era a ilha de Cananéia (ilha do Bom Abrigo, 25 graus, Códice da Ajuda) contra o códice é desabrigada do vento noreste e suldeste: quando venta mete mui gram mar. Um rio na barra de preamar tem três braças e dentro outro rio e em Dois Rios éramos dois mil e trezentos prisioneiros além de Demóstenes González e Agildo Barata e Belmiro Valverde e Osvaldo Franca ouvia sonatas e o sargento Francolino de olhos verdes e rosto de cobre havia sublevado os navios e Aguinaldo César Cals amotinou a maruja e o marinheiro Gregório encostou o cano do fuzil na nuca do Capitão de Fragata e Hasselmann tombou varado à bala e íamos no bergantim e os condenados morriam nos porões e os mariners americanos escarneciam no porto e Braulio Guimarães os mandou à puta que os pariu e Pacheco de Andrade os chamou de malditos e eram oito ou nove braças de tempo até à ilha e a um braço do labirinto, Ariadne adormecida, mordi o fio da Parca e o bacharel havia trinta anos vivia degredado nesta terra e aqui estamos, Tomás, os degredados filhos de Eva: degredado do rio, da palmeira, das moitas olorosas do rifle do sertão degredado da cana-caiana e do cavalo melado e seus relinchos e era uma vez um touro e seu urro nas noites de Ipueiras e o canto de um galo sob as goiabeiras do quintal era uma vez teu braço poderoso contra o trovão e o raio - "Capitão" - diziam - e à porta da igreja entre imagens silenciosas eu te sabia Deus: degredado do avô, do cavalo estradeiro não cante o menino perdido outra canção na estrada: por seu tom saiba talvez um pássaro errante caminho de voltar: no pátio do Hospício de Santiago mostrava Hugo Alexandre: repete um louco a incessante história há trinta anos de repente, quem sabe, a palavra delirada encontre o fio de Ariadne canta, Tomás, Gerardo em seu labirinto e parte com Pero Lopes com oitenta homens pela terra adentro com teu homem verde, pois o navegante se obrigava em dez meses tornar ao porto com quatrocentos escravos carregados de prata e ouro: assim partimos desta ilha os quarenta besteiras e os quarenta espingardeiros: ali temos estado dias e séculos e neles nunca vimos o sol: de dia e de noite nos choveu sempre com muitas trovoadas e relâmpagos nem nos ventaram outros ventos senão sudoeste-sul grandes tormentas destes ventos e tão rijos que em nenhuma parte os vi ventar perderam-se nossas âncoras quebraram-se nossos cabres se apartaram de nós os bergantins e estava o bacharel de Cananéia no quarto da modorra, bacharel da Gávea e do Leblon, de Villaguay e o bacharel de Africa e França e Copacabana e Buffalo, USA, bacharel do Cerro Castillo e de Saint-Cloud bacharel de Itabuna e Caballito agora Virrey Loreto bacharel de Ipueiras e Alagoas e de Viña del Mar repete ao mar Pacífico a cantilena do louco a pelicanos atentos e gaivotas levianas repete em tua flauta o teu degredo dos engenhos da serra e dos bodes sertanejos teu degredo de Carmen Dora e Lúcia Isabella de todas elas: era tanto o vento do nordeste que virando no bordo do mar me levou o traquete d'avante. Gerardo Mello Mourão Subia Pero Lopes o rio dos Beguaes e ali Subia Pero Lopes o rio dos Beguaes e ali dormem os homens onde lhes anoitece e são mui tristes o mais do tempo choram: suspiravam sempre e não faziam modo senão de tristeza - e veio um dia o farmacêutico do Ipu, pois era, naquele tempo o soluço do capitão: no silêncio da noite morto o eco do relincho das éguas morto o rolar do rio nas ribanceiras era da camarinha à calçada da rua o soluço do Capitão: por quem soluçava ele na noite de Ipueiras? Antônio Soares consultou o Lunário Perpétuo à luz da lamparina: Soluço - suggultium - contração espasmódica, do diafragma seguida de dissensão, em virtude da qual o pouco ar que entrara no peito é expulso com ruído" - e sobre o largo peito sobre a hirsuta pele a haste mergulhada na garganta tremia ao vento da vila atônita a flor de seu soluço: por quem soluçava o Capitão? Suggultium doridíssimo rasgador de corações que vinha do coração e nunca do diafragma: em silêncio o rio a brisa e o gramofone da sala. Por quem, fixos nos meus os seus olhos azuis transida neles a face que hoje tenho e transidos nos olhos do menino o olhar das que morreram das que iam morrer de seu amor da que ao doce veneno deste amor na morte gota à gota degustada morria de não morrer: por mim por ti por quem suggultium amarum in ainaritudine amaritudo mea amarissima por quem, boticário do Ipu, olhos fixos nos meus três dias e três noites na noite de Ipueiras soluçava o Capitão da raça dos Mourões naquele tempo? Causa mortis de meu avô: - soluço - suggultium firmava em latim o boticário do Ipu: naquele tempo, tempo de Alexandre e Cascavel segundo os reis eclesiásticos encontravam-se na Capitania 9.371 fogos com 34.181 pessoas de desobriga e eram vilas freguezias capelas fazendas de criar e engenhos de fabricar o mel a rapadura a aguardente e pelos fogos e suas pessoas de desobriga soluçava talvez o Capitão - pela cana-crioula pela cana-caiana cana-fita cana-rosa cana-preta cana-bambu cana-cabocla carangola cana-bourbon cana-de-cuba flor-da-flexa pelo engenho baixeiro que não canta mais na gitirana em flor algemada a almanjarra pelo cocão partido pela ossada dos bois pela rede no alpendre pelas ancoretas de aguardente pelo jumento morto no terreiro e a filha inupta e o rifle pendurado por Pedro morto à faca e Alberico à bala por Francisco enterrado aos oito anos pelos vivos pelos mortos pelo neto romeiro e sua perdição sua invenção ó pé-da-serra dos Mourões ó lezírias e montes da Tessália do largo peito ao coração do infante se partia da partilha de teus poderes o poder de teu soluço de morte Gerardo Mello Mourão Pelas restingas perigosas Pelas restingas perigosas levávamos tudo bem olhado e sondado quando surgiram as sete náus francesas a buscar mulheres e gados a França: fugindo delas e dos mares que me comiam, saí a umas terras - tudo quanto se pode imaginar de temperadas e boas de muitas águas vivas e muitas e grandes madeiras e este ano para mim todo foram descobrimentos navegando por dentro das bahias, correndo aloeste um dia um navio pirata de dezoito peças de artelheria com que pelejei me matou toda a gente, que foram dezenove homens não ficando mais que três e um menino todo em pedaços e eu fiquei com vinte e três feridas, com uma das mãos cortada e uma cutilada no rosto e preso em terra estrangeira os capitães covardes pediam minha morte por ser eu da raça dos que descobriram o mundo e a possessão das terras - e vieram mulheres de Dieppe intrigar contra minha cabeça os capitães que a meu rei não servem - e de seus alcouces polacas mal paridas e megeras em fúria esses cães açularam: e os que estamos a serviço de descobrir e possuir a terra freqüentamos a morte. Atestado de óbito - cartório de Sobral, 4 de novembro de 1856: "- o Coronel João Bento de Albuquerque, branco, viúvo, de 70 anos, morador no Sítio Algodões, faleceu nesta data por desgraça de eleições e era gente dos Mourões" e por outras desgraças por desgraça e por graça de amor é nosso exercício a gentileza da morte - e este é o punhal de Vicente Gomes Parente e pendurado entre o Goethe e o Shakespeare sua bravata goteja sobre a estante o fantasma de suas punhaladas: "I am not so sexy as to like blood" - ouvira Meyer-Clason - e a condessa sorria entre a pistola do conde e o rosto pálido do aventureiro russo e não houve sangue e já não era em Veneza o caminho da Grécia: por um rastro de sangue trago notícias da Grécia e meu tetravô ocupava o mundo e ensinava a partir e chegar da viva morte e morava no lombo de seu cavalo alazão e o chão em que se erguia não lograria ser mais vasto que as patas de seu cavalo - e na garupa levava sempre o par de alforjes de couro e nos alforjes lençol de linho e manta de cochonilha e um frasco de alfazema do monte: em toda estrada há sempre uma serrana e sempre a caminho do amor - e por ali é o caminho da Grécia: nem se despeça dele o coração do peregrino - e para a bem-amada rescenda sempre o macho nos lençóis de linho à alfazema do monte: assim Lancelote da Franca na guerra da Bahia à frente de seu terço de soldados em sua armadura fulgurante saía a combater o bátavo os cabelos e o corpo banhados de perfume e o hebreu Antônio Dias Paparobalos se vendeu ao holandês e os urubus da Bahia recusaram o pasto de seu corpo entre a carniça de portelas raposos e batistas e a tríade de súcubos insepultos: as raparigas desejavam o corpo de Lancelote da Franca com a senhora Morte era galante - e assim corresse seu sangue entre perfumes Claudenor: com três cabras armados invadiu a casa de Otávio Aires e carregou a filha mais moça galope ao vento da estrada de Limoeiro no cio da madrugada: - sempre sonhei ser raptada em teu cavalo - de Arapiraca a Porto Real podem beber de graça em todas as tabernas e disparar as pistolas no caminho e era entre os canaviais da várzea cheiro de pólvora cheiro de folhas e cheiro do suor dos cavalos excitados ao cheiro da semente humana - e Laura Laura Nogueira - sou eu, my dear, vim desde o norte para te ver posso ficar três dias, meu marido me espera na próxima semana, no quinto dia o avião da Panair se espedaçava entre Pernambuco e Ceará e entre os destroços havia um brinco de ouro numa orelha mordida e o fogo poupara os cabelos à la garçonne os olhos cinza e o coração boiando sobre os dilacerados seios e o coração cercado de chamas Cor Jesu, o Padre Mateo, o Padre Vicente, o Padre Smithuis de voz melodiosa na noite de Congonhas Cor Jesu, fornalha ardente de amor, miserere nobis - e o coração cercado de labaredas e o êxtase de Margarida Maria Alacoque: moreno dois olhos negros que parecia um Mourão desses que descem a serra de perneiras e gibão com uma rosa no peito e uma viola na mão: é dia de dança e festa da Virgem da Conceição: pegou francesa branca e mostrou-lhe o coração - ai, gigolôs arrastando débeis fêmeas pela mão - ficou a francesa branca mais branca do que algodão e Jesus de Nazaré a carregou do salão e em Paray-Monial rolaram flores no chão quando a louca Margarida na desvairada paixão nas mesmas chamas do dele acendeu seu coração: ai, Jesus das Ipueiras ai, Margarida Mourão! E súbito Araci recorta os hinos, Maldonado, os hinos de Araci de Almeida - e os dedos do poeta dedilhavam as grades da prisão - e o sal das lágrimas das fêmeas lhe temperava a boca: c'est moi, Mylène, mon chéri, venue do Porto Alegre pour te voir - e em Porto Alegre Aída matou o gigolô na Casa Verde com cinco tiros de um revólver Taurus e Laura Martinez abriu uma loja de flores - não, Laura Nogueira entre Pernambuco e Ceará loja de prantos loja de corações, pois nem o fogo os destrói, y tengo, Fleifãs neste bairro de putas de Buenos Aires o coração hecho pedazos. Silvinha - lembras - desatou o fecho-éclair do blue-jeans e fez amor todas fazem amor, querido,.mas não em madrugada de chuva no cemitério sobre o túmulo do avô com Manuelito Porto - e os mortos dormem entre seus cravos amarelos e a semente da morte - a morte dorme na relva de suas coxas no túmulo de sua mãe: Gilena se deitou com o francês do bar quem faz o amor, quem faz a morte? ninguém faz nada desde aquele tempo e as velhas sabem ruminar e moer na memória memórias de amor e morte - e caminham castas para o cemitério e sobre suas louzas, os blue-jeans arriados Silvinha e Manuelito e Gilena e o francês do bar - Dominique, voilà - e uma tarde sentarei meus filhos em meus joelhos para fazer o que sei: contar histórias de amor e morte e sei o caminho da Grécia e o caminho da sepultura e ali sobre os ossos de Apolo farei amor contigo, amada, e macho e touro e Mourão te escreverei no ventre um nome. Gerardo Mello Mourão Diz o Capitão Martim Soares Moreno Diz o Capitão Martim Soares Moreno que vindo do Maranhão para o Brasil arribou a índias. E o polegar no ouvido o resto da mão esquerda em trompa arribou de Mel Redondo: caboclo do Geremoabo Feitosa dos Inhamuns Mourão do país dos Mourões e raiz de Olinda Igarassu Olho d'Agua das Flores Ingá do Bacamarte Limoeiro de Anadia Oliveira Águas Belas Água Branca dos Torres raiz de Geremoabo Ipueiras Ipu e Crateús Poço das Trincheiras Tanque d'Arca Boca da Mata e Jacaré dos Homens e além da Ibiapaba e Borborema o polegar no ouvido arribou de Mombaça o curral saudoso no Arco do Triunfo no país da França na Piazza San Marco Marble Arch e mármores de Atenas: vou aboiar, Coronel Geraldo, vou aboiar e este crepúsculo e o curral saudoso e o quebrar das barras tenha paciência - mas eu vou aboiar - e no poente da Europa ondulou tremulante o aboio de Alexandre nas quebradas de Tamboril - e aboiei no poente do Reno e o curral saudoso e a cólera do gendarme e o espanto gótico dos bispos príncipes de mármore erguidos do sarcófago em Colônia e na Piazza della Signoria e no curral saudoso e no punho de bronze estarrecido o punhal de Cellini a pajeú no cós tenha paciência, mas eu vou aboiar e aboiei, Coronel, e a Borborema a Ibiapaba e as barrancas do São Francisco, Dantas, onde sois doutor: e a flauta de Apolo serenava na ribeira helena ao dolorido aboio e o aprendiz ensinava e as ribeiras do Sena e do Danúbio e Belgrado e Viena arribavam Capitão, à vossa capitania hereditária: país de Geremoabo sesmaria de Amaro e Gesuíno e seus bois pastando o amarelo da amarela tarde, pois, em meio à peripécia lhe disseram: ia partir para uma ilha deserta e tinha o direito de escolher três livros: e escolhi uma faca do Cariri uma espingarda Winchester e uma rapariga serrana: e era uma vez uma viola de pinho dois olhos negros cantando sobre os rochedos da ilha: do gume da faca o gomo dessa flauta de taquara: e às vezes a mão esquerda dedilha teu corpo nu e ao gatilho da direita tiro seco de Winchester: cai a avoante do céu - e às vezes o mar parece sobre os rochedos da ilha um verde boi sonolento e o langue longo chocalho - sertão de longe é lonjura - e o pasto bom das espumas e o polegar no ouvido e o resto da mão esquerda em trompa aboiei, Capitão, naquela tarde, aboiei para sempre (e a flauta de Apolo serenava na ribeira helena o dolorido aboio) - e desde quebradas de Quebrangulo às Ipueiras e Aguas Belas da ribeira do Parnaíba à ribeira de Kypros serene o touro a flauta de tua coxa ao dolorido aboio. Gerardo Mello Mourão Desdonde arribei Desdonde arribei dou conta de minha viagem e bom sucesso com grandes trabalhos: apartado do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque me meti num rio e logo ali começaram bons semblantes de terras e fui com o capitão-mor Pero Coelho de Souza a descobrir e conquistar a província de Jaguaribe e Ceará e Mel Redondo e Vossa Majestade devia ser servido ordenar que a Capitania do Ceará fosse do governo do Brasil - e ali cheguei em seis meses de guerra onde recebi muitas feridas e tivemos muita batalha com índios que eram infinitos e muitos franceses: e degolei mais de duzentos franceses e flamengos piratas e tomei três embarcações e uma delas veio a Sua Majestade todas a proa e popa douradas e para fazer estes assaltos me despia nu e me rapava a barba tingido de negro com arco e frecha ajudando-me dos índios e falando a língua e perguntando o que já sabia. E eu, o Rei, assinada e selada de meu selo pendente faço saber que Martim Soares Moreno depois de dezessete anos de crua guerra é meu Capitão da Capitania do Ceará e um dia o tomaram os franceses e lhe mataram toda a gente deixando a ele estropiado com vinte e três feridas e assim o levarão à França em prisões e ferros onde o tiveram preso em cadeia fazendo com ele grandes vexames e gastou toda a sua vida em contínuas guerras atravessando muitas terras do sertão e agora o querem molestar por suas dívidas de que se endividou a meu serviço e a serviço da fé em Nosso Senhor por amor do Jaguaribe Ceará e Mel Redondo e está a cento e cinqüenta léguas do Maranhão alonorte e mais cento e cinqüenta léguas de Pernambuco e é ali a terra de Martim - mastim da matilha de Pero Lopes de Souza e de seus bagos venho. Aprendiz da peripécia ensino a peripécia o mel redondo a náu francesa o tamarindo a cajazeira o cedro entraram duzentos degolados e a rocha e o rio e a palmeira e o lábio da defunta e os seios de Laura Lillian na garçonnière e a touceira de Elisa palpitando virilhas de cidreira. Pois o aprendiz ensina: e era às vezes em seu ninho de acúleos o pássaro dorido: quem pudera de novo ao pássaro esquecido de seu canto ensinar a garganta? Ao esquecido de si que restaria senão enumerar os nomes para a forma à formosa e o chão ao sítio? Pois era no país da Paraíba a vila do Ingá do Bacamarte e uma garganta apunhalada em Girau do Ponciano e em São Miguel São Miguel dos Campos, Barra de São Miguel, país dos Torres, comemos moqueado o bispo português comi depois uma condessa de Frankfurt enquanto vinham Margaret, Angela, Monique a flor de seus cabelos na flor do aguapé das lagoas e o Passo de Camaragibe e o mar de Maragogi por onde Calabar e a flor de ouro das canas no país de Alagoas. E ali o velho Torres tivera seu engenho Botija e era um senhor de engenho sem força de governo e perdeu o que tinha no Botija e foi obrigado a vender seu engenho copeiro com suas almanjarras e sua burra seleira e até morrer queria comprar de volta o engenho e recuperar o dinheiro perdido: - "não se meta mais com esse engenho onde perdeu tudo" - e o velho teimoso e sábio insistia: - "onde é que possa achar o que perdi senão onde perdi" - e no sonoro nome das terras de um pais de água viva e doces fêmeas procuro e caço o medo da morte e o medo do amor até morrer - e às vezes súbito no bergantim da noite os teus olhos de ouro - e ao luar da pupila a rosa de teu rosto a rosa de teu nome ó rosa erguida no mar em haste de água - rosa à minha lapela - rosa cravada sobre o coração rosa em haste de sangue e às vezes haste de vinho e Sônia e Sandra e Laura e Mônica e vem Mylène de cintura fina e Carmen e Laís e tu rosa sem haste da impossível noite sobre o lábio a arder a cicatriz do beijo único: pisa - disseste - a memória desse beijo - e quando sua flor me despontar de novo à boca cingalesa... - e mais não disse e às vezes era sonhada e no sonho seu moreno pé esmagava as violetas entre ruínas da Via Appia antica e sua boca estrangulado o beijo queimava o gélido vento da Flandres - e onde buscar o que perdi senão onde perdi? E às vezes nem o nome e tua beleza persa sustenta o boulevard e rememora ao cantor o tom querido e partida na mão a flauta inútil feito soluço o que seria beijo o que fora teu nome se faz lágrima angústia nos pulmões o que seria sobro na flauta inominada amante: um ao outro indizíveis oh! challenge to Venus! Challenge to Venus! Por isso digo tanto rosa estrela mar memórias de teu nome, irmã e da rosa e da estrela e das águas - e às vezes a noite do Equador nas orelhas de Nena tingia os teus cabelos quem sabe em que pais e norte e lessudeste além de Jaguaribe e Mel Redondo por onde Martim Soares Moreno e Pero Lopes e de seus bagos venho sobre popa e proa douradas tingido de negro, de arco e frecha e barba rapada e nu na proa dourada vou falando a língua: Gerardo Mello Mourão E às vezes tomávamos gin e Paulo Fleming E às vezes tomávamos gin e Paulo Fleming ordenava o málaga negro e o Jerez de la Frontera e uma noite achei a estrela - e viva e fulva tremia sobre a fulva cidade Agrigento! Agrigento! - Raul desarrumou suas camisas e tirou do fundo da mala um rolo de cartolina: "este es el mapa de la mina" - e tirou um chinelo argentino de couro de bezerro: "que no lo sepa nadie, esta es la sandalia de Empedocles" - e com olhos chineses sorria seu bigode negro à luz da estrela ruiva sobre a ruiva cidade Agrigento! Agrigento! e às vezes Cristiano ordenava a cerveja neutra e Nelson Nelson Americano Freire ordenava o Black Label - outras vezes a fome era ordenada e na Ordem da Fome professava o barão e professavam Abdias, Tolipan, o judeu, Elias, o sírio, e surgia miraculado em sua nota de vinte mil réis Sebastião Milagre Rodrigues Alves e comíamos todos e eram dadas graças a Deus, às vezes graças a Antídio e a Rodoval e Rodoval fuzilara na praça de Ilhéus o rei do cacau por amor de Lalu e trocou Lalu por Conceição e Conceição veio acabar-se na Pensão Imperial onde Emília regia a Lapa numa firma de caftinas russas e francesas e onde servia Manolo, marechal dos veados e duas mil prostitutas e quatrocentos automóveis desfilaram em seu enterro no cemitério de São João Batista e os bordéis da Rua Conde de Lage, com Raymonde, Ginette, Luzia e Dolly e as outras se cotizaram e um acadêmico italiano esculpiu o monumento e uma dramática Magdalena de mármore enxuga com seus cabelos os pés de um Cristo lânguido - e Manolo teria preferido sobre a cova - testemunha Vanda um grande falus de granito - e foram os funerais esses de Manolo maiores que os de Edgarsinho quando duzentos automóveis de bicheiros e bookmakers fizeram questão de ver o carro fúnebre com seu penacho negro dar duas voltas completas na Praça da Bandeira antes que o belo cadáver do baleado en mala muerte descansasse no cemitério do Caju: e adivinhara a morte de véspera e a saudara de joelhos no mosteiro de São Bento e tenho parte nessa morte e nessa vida eterna tenho parte a caminho de Agrigento Agrigento! Agrigento! - e os de Agrigento perguntavam Agrigento? Agrigento? - e a voz era de apelo ou de derelição - e a lira pendurada no cajado pastor hei sido por todo monte por tanto val zagal doze zagalo por este valo de lágrimas lavado o sopro da vadia avena ao vento verbena avenca valsa de avena favo de mel full of sound signifying no THING fury of no THING Agrigento! Agrigento! - a fulva coma de teu casario e teus montes Agrigento! Agrigento! Vanda Vanda Moreno com essa sandália de ouro zagal da vadia avena por seus vales eu vou às de Agrigento fugite fugite a gurgite vasto fugi de Agrigento! E enquanto Raul desarrumava a mala e Agustín desarrumava Juanita, Abdias, Efraín e Godo exclamavam: Rachador da Estrela! achador da estrela!" - e a estrela queimava a mão do filho dos Mourões - Agrigento! Agrigento! je mangeais l'étoile - e veio o vício de comer estrelas fulgurantes: fulguravam às vezes no cristal e ardia bêbado o bebedor de estrelas Agrigento! Agrigento! Laura Martínez sacudia as sandálias de esmeralda: foge, foge de Agrigento e da taça de estrelas espumantes onde as outras beberam o ignífero veneno - e nas entranhas de Clarice morta de morte violenta íamos lendo, íamos, Dora, as notícias da Grécia vindas de Agrigento e ficávamos todos espantados no meio do mar da banda daloeste em fundo de vinte e cinco braças de areia tesa e súbito se faz à vela o galeão no rolo do mar, e é ali Agrigento, Agrigento com seus cavalos malhados e seus galos de crista alta, e onde entre as raparigas deitadas na praia comíamos em suas virilhas a orquídea e a estrela. Gerardo Mello Mourão Brejo de Areia sertão de Bruxaxá Brejo de Areia sertão de Bruxaxá aos pés da Borborema país da Paraíba - meu primo Bernardino mandou matar um major de Catolé do Rocha e mandou dobrar o sino a finados por sua alma e encomendou missa de requiem tenho parte nas mortes e nos mortos mos, moris - o costume mors, mortis - a morte - o coronel estava precisando de matar José Possidônio, ladrão de gado e ladrão da honra de Mariana e Mariana era filha do melhor vaqueiro do Sant'Ana do Ipanema e José Possidônio era um facínora temível bom no rifle e no punhal e Manuel Jesonias se ofereceu para fazer o serviço por quinhentos mil réis e Manuel Jesonias era pequeno, magro e amarelo e o Coronel perguntou-lhe se tinha mesmo coragem de enfrentar José Possidônio para serviço de morte: "coragem, Senhor Coronel, eu não sei, mas o senhor sabe, a gente tem costume" - mors, mortis - a morte mos, moris - o costume et mors in more moremortos me namoram e aguardo morigerada morte e morte e amor são costume dos machos no país dos Mourões onde ao canto dos galos nos quintais de cajazeiras responde o dobre de finados na merencória tarde - e paguei quatrocentos mil réis ao sacristão de São Cristóvão e os sinos dolorosos dobraram por três horas cortando o coração pela morte do adolescente espanhol no dia do Alcázar de Toledo: boa noite, Coronel Moscardó tenho parte nessa morte nesse país de Espanha e mandei dobrar os sinos de Camaragibe pelo morto da guerrilha boliviana e os pescadores de Alagoas choraram por Che Guevara e tenho parte com os mártires tenho parte com o filho de Amaralina tombado em São Paulo o coração varado à bala - tenho parte ali e em muitos outros países de onde chegam as notícias da Grécia ao viajante - algumas eram trazidas pelas meninas suicidas - Fausta Carmélia, Mariasinha e Aparecida elegeram o salto da janela o gás do banheiro o lisofórmio e Agostinho elegeu o abismo da Mantiqueira e Godof redo o tiro nos miolos e o bonzo de Saigon a tocha humana - e eu venho tomar parte: naquele velho almofariz de bronze, Hermenegildo, farmacêutico fazia infusões perigosas procurei venenos lentos na flor dos dias e das noites e aprendi a morrer do dia de ontem da noite de amanhã desse punhal de amor: na fulgurante lâmina a esmeralda de teus olhos se parte vem, formosa mulher, camélia pálida que banharam de luz as alvoradas - e um dia Arabela ergueu-se do meio de seus vestidos de seda e clamou pelo telefone: "ela está morrendo!" - e depois, Francisco Galloti pai da Pátria Senador da República também começou a morrer - e os olhos moribundos invocavam a teoria de fêmeas para nunca mais: formadas em fila - suspirava - iriam do cais do Rio de Janeiro a Florianópolis e nunca mais e suspirava e ia morrendo aos poucos e morreu e entre generais senadores e ministros Helenita e as outras figuravam na teoria de lágrimas de seu enterro de pai da Pátria - tenho parte com os mortos e suas carpideiras e com o pássaro ferido sobre o chão de folhas tenho parte E em cismar sozinho à noite mais prazer encontro eu lá as aves que aqui gorgeiam não gorgeiam como lá - naquele tempo gorjeavam Mary Galeno na casa azul de Ipanema e Clarice na praia de Niterói onde ainda não eram os verdes olhos bravios de tua face fatal verdes olhos que brilhavam como líquida esmeralda e os olhos que hoje gorgeiam não têm o verde dos teus de lua de mar de ouro ó bela dos olhos de ouro pois naquele tempo tremiam os olhos míopes de Dalva miosotis de Francesca - e Else: Else Wojeichowski acendia o leopardo de suas pupilas alemãs entre lagos de cinza glacial de Margarida: todas têm sua vez - sabe Abdias - e uma tarde foi a vez de Giselda e outra tarde foi a vez da Parca Seme Jazbick surrado até à morte pela polícia - e Nilza formosa e colérica e os outros adolescentes choravam sobre a sepultura do estudante morto - e a flor da vingança plantei no chão dos cemitérios Solrac! Solrac! Solrac! doutores neutros cortavam sobre a mesa de mármore o belo corpo do negro Juvêncio e recolhiam num pires de louça as balas que o mataram tenho parte e o poeta Augusto bão bala-ão bala-ão abençoava o inútil - e Carlos Carlos José de Assis Ribeiro sublevava o claustro dos jesuítas e Telmo Telmo Belo Borba Moura deixava sua carteira de dinheiro nas mãos do poeta para esta crônica e para tonsurar a cabeça e envergar o burel dos padres bentos e neles tenho parte e tudo era missão e éramos muitos os adolescentes em flor e a cabeça sagrada e a voz de mago de Tasso da Silveira enchia a tarde entre as mesas do bar e entoava a Salve Rainha no chão do calabouço naquele tempo e cantava - e tenho parte em seu canto. Depois, Clodomir sublevava os camponeses no país do nordeste e se dizia que o Doutor Aguinaldo, fls. 38, tinha chamado o Sargento Severino Paulino para cortar o pescoço de João Pedro que a fls. 63 consta o seguinte: que o povo do Pilar comenta com muito cuidado que a morte para matar o camponês João Pedro partiu do Doutor, que por volta das oito horas o interrogado falou com um vaqueiro de nome Arnô Claudino, morador do Engenho Recreio, de propriedade do Doutor, na porta da mercearia, junto à farmácia, no Pilar, que, aceitando o convite, recebeu, cerca de uma hora da tarde, um cavalo castanho, meio vermelho, das mãos de Arnô, que, nesse momento, o soldado Antônio Alexandre recebeu também um cavalo melado de Arnô, o qual montava um cavalo também melado; que os cavalos foram distribuídos em uma cocheira que fica por trás da cadeia, em uma casa dos filhos do Doutor; que, nesta cocheira, ele, interrogado, se encoirou em calça perneira e botou gibão e chapéu de couro de vaqueiro, que o gibão e a dita perneira podem ter sido assovelados em Tamboril, parecendo ter mão e marca de mestre Florêncio, mas o chapéu era mesmo de Campina Grande ou Guarabira que são tal qual os de Jacaré dos Homens nas Alagoas; que, já encoirados, seu companheiro disse a ele declarante: se nesta terra existissem mais quatro homens da raça do Doutor este negócio dos camponeses se acabava - e rematando disse ainda a ele declarante, referindo-se ao doutor: ô velho macho! - e os velhos e os moços eram machos e encoirados em seus cavalos melados assustavam a cana peojota e as raparigas morenas e os últimos rifles estrondavam na várzea em flor ao pé das Borboremas azuis e tenho parte na várzea na Borborema e nos últimos rifles e dos primeiros deles em meu rosto resta o afago calejado de meu avô o cheiro da pólvora de sua mão bravia e essas são noticias do caminho da Grécia, Clodomir, e à beira dele se colhiam jaboticabas no quintal de Ipiabas e nos olhos de Dalila, a de pele de pêssego, irmã de José Pedro e o cavalo Sultão se empinava em frente ao quartel e ali o Sargento da Remonta tinha leito com a mulher e as duas filhas - agora, mais com as filhas - diziam "um monstro! um monstro!" e o velho sargento alagoano adoçava os olhos e as mãos nas coxas das filhas tímidas e emprenhava os próprios netos e tudo era missão: Nenen Pegas descascando a lima da Pérsia e rindo sob os limoeiros em flor com seu cabelo à la garçonne e Sinhá e Mara de olhos boreais e as plantações de fumo de meu tio com seus pendões floridos Cípria - dizem - ao pé do Céfiro das belas águas brotadas largou sobre o país as brisas suaves dos ventos moderados - e era brisa e regato em torno ao corpo sobre folhas de Isabel - e Gregório seu pai era ferreiro e forjava freios de cavalos ferraduras e malhava a bigorna e fabricava aros para rodas de carro de boi - e os carros desciam pela estrada matinal com fueiros de canela cheirosa e eixos cantadores de peroba da serra e Isabel gemia e em seu pistilo rosa de ouro era forjada - e Mascarenhas artista ourives de Crateús forjava medalha milagrosa e cordões de ouro e o filho dos Mourões Mourão sonhava talhar em pedra e flor e nuvem rosto de Musa - e talhadas as grandes melancias da Várzea dos Mello e os melões olorosos e entre os cajás amarelos o rosto de Abigail talhar na boca e os bogaris mordidos e aspirados na noite de Ipueiras - e aspirei quanto pude a violeta divina da serra ainda azul nos horizontes do verde mar dos verdes mares ao mar purpúreo da Jônia e a alga se pegava à minha cabeça e as ondas todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima de mim as águas me cercaram e no sítio das águas me rodeava o abismo das verdes rosas perigosas - e a terra e as águas me rodeiam para sempre com seus ferrolhos e às vezes vira a náu nos bordos da terra com os papafigos baixos perto da ilha das Sereias e batem os grupetes na pedra e o canto mergulha no coração a sua cimitarra: desci até aos fundamentos dos montes e das águas homem ao mar! homem ao mar! - e nas ondas agarra-me pelos cabelos, Eurumedusa, boiando a flor akanguera a degolada cabeça negra na bandeja das águas verdes sobre espumas de ouro. Gerardo Mello Mourão Entre alabardas do Museu Histórico Entre alabardas do Museu Histórico Gustavo Barroso inventava a glória paraguaia e Mariano Mafra pregava o massacre dos judeus enquanto Berta Samuel me devorava coração e pênis na Rua Santo Amaro e na Praia do Russel o Almirante jovial manobrava o bilboquê e o coração vida da minha vida, Glória querida - exclamava de joelhos e Dona Glorinha bela enchia de graça e suco de uva o cristal do Almirante e Paulo Fleming aprendia a um tempo o cálculo infinitesimal o ditirambo o gin e as noivas familiares e Manola o aguardava com seus olhos azuis e Simone era cantada por suas sonatas ao piano e seus cabelos naquele tempo Manuel Hasslocher era barão e entre suas lavandas cintilava a esmeralda no pulso da baronesa Torelli e se ensinava ao poeta o Bourgogne a lavanda as estrangeiras de tornozelo fino e os cachimbos de cereja e rolava em seu aroma o seio branco de Bice Taliani depois roçava la Karavaieva a tangerina de seu rosto e as marquesas da Itália e as putas de Araguari e la maison de Madame Janine Rua Cândido Mendes - Tônia Madô Louise e Dolly conheciam a virilha do príncipe libidinoso I am an indian prince, Madam, and this is Mr. Ottoni and this Mr. Americano Freire coming from Karputala - e Maria Alonso oferecera seu corpo paraguaio na noite de Buenos Aires e depois era cantada entre as grades do Presídio da Ilha Grande com aguardente e evocações às musas helicônias - e ali. Atena de olhos garços foi vista sobre.a relva noturna a bunda branca à lua e ao ritmo do prisioneiro alemão - e era uma vez o cigano dos Balkãs Nicolau e passou a lâmina no pescoço de ouro da cigana Marena e perguntava aos guardas do presídio - "a mulher é sua? a lâmina é sua? Então o sr. não tem nada com isso" e eu ia degolando com minha própria lâmina a minha própria