Gerardo Mello Mourão A Geopoética de Euclides Tapuia, celta e grego - foi como Euclides da Cunha se definiu a si mesmo. Não etnicamente, é claro, pois, etnicamente, todo homem se perde no labirinto da raça imemorial. Tapuia, celta e grego - o que se expressa neste tríqueto de aparentes antagonias, é o sentimento do mundo em que se fundou sua geopoética das coisas, dos lugares e das pessoas. Certa vez, convidado a pronunciar uma conferência para professores da Universidade de Pequim, fui surpreendido, ao final do debate, por um jovem professor chinês, que desejava mostrar-me "um longo poema brasileiro, perturbador e cosmogônico", que encontrara nas prateleiras da biblioteca acadêmica, e que lera, emocionado. Passou-me o livro, na encadernação típica, com sua capa dura forrada de seda azul, o titulo na Ultima página, com os belos caracteres recortados em linha vertical. Era uma tradução chinesa de "Os Sertões", possivelmente o único exemplar que restava na China, salvo 'talvez por acaso da fúria bárbara da revolução cultural, que queimou em praça pública quase todos os livros "dos demônios ocidentais", vertidos para a língua mandarim, nos dias da dinastia Ching e nos primeiros anos da república. Euclides escapara das chamas que não pouparam, por exemplo, o único exemplar de um manuscrito com a tradução completa dos Lusíadas, conforme me contava um neto do poeta João de Deus, Conselheiro da Embaixada de Portugal em Pequim, que tentara localizar o precioso original. Não é de estranhar, de resto, o furor biblioclástico da mesma revolução que queimou também as obras de Confúcio, os poemas de Li Po, de Tu Fu - os incomparáveis poetas da dinastia Tang, e as odes da antologia confuciana com que Pound renovaria, neste século, as estruturas da poética ocidental. Os chineses, aliás, sempre queimaram livros, mesmo no esplendor de sua civilização. O imperador Hoang-ti, por exemplo, há mais de mil anos, enciumado pelas glórias de soberanos de outras épocas, consignadas nos livros de história, mandou queimar o famoso "Xu-Qing" - o livro dos Anais, compilado pelo próprio Confúcio, e parte do Pentateuco confuciano. Ao serem lançados às chamas os livros do Mestre, quatrocentos e sessenta letrados jogaram-se também na fogueira, para perecer juntos com o livro venerável. A tradição da queima de livros continua ainda hoje. Só que não há mais letrados para morrerem com eles. Mas isto é outra história. É e não é. Pois, foi preciso que o livro de Euclides se salvasse do fogo, para que um letrado chinês o exibisse ao surpreso escritor brasileiro "como um longo poema perturbador e cosmogôníco". Tentei, inutilmente, convencer o apaixonado leitor chinês de Pequim, de que não se tratava, propriamente de um poema, mas de um ... e aí estaquei, sem saber, eu mesmo, como designaria a saga polifônica de "Os Sertões". Lembrei-me, então, da resposta de dois poetas hispanoamericanos que, indagados, certa vez, por um editor alemão, sobre qual seria o maior poema da América, disseram com toda a fé de sua sabedoria poética: - "Os Sertões", de Euclides da Cunha. A resposta de Efraín Tomás Bó e Godofredo Iommi, naquela longínqua manhã de Buenos Aires repetia-se, como um eco, tantos anos depois, numa fria manhã do inverno pequinês, quando o apaixonado professor insistia comigo que se tratava de um poema, e que era pena que a tradução chinesa não tivesse sido feita em versos. Parece correto, assim, que se restitua ao rapsodo de "Os Sertões" neste ano de comemorações euclidianas, sua verdadeira identidade. Ele não escreveu uma obra de sociologia, nem um livro de história. Sua visão da "coisa" brasileira não se esgota nessas vigências do conhecimento conceitual, nem nos limites sempre escassos para a visão cósmica, de uma pobre especulação geopolítica. Creio que é de Joaquim Nabuco, um humanista europóide, brasileiro, abolicionista, mas ainda assim racista a seu modo ou à moda da época, a observação, ao passar os olhos sobre as páginas de "Os Sertões", de que Euclides escrevia "com um cipó". Também já se disse que essa censura acadêmica seria exatamente o elogio maior do estilo do brasileiro Euclides da Cunha. Espécie de Centauro do Trópico, meio terra, meio homem, sua escritura era rude e barroca como a paisagem e as pessoas do pais sertanejo. Também já se disse, creio que Álvaro Lins, que Euclides é responsável pelo mau estilo das gerações que lhe sucederam, e isto é mais ou menos verdade. Confundiram o vigor crônico de sua linguagem com a declamação grandiloqüente. O barroco euclidiano degenerou no rococó dos deslumbrados, que durante tantos anos produziu no país uma literatura altissonante e suspeita na qual se pode inscrever a obra do próprio Guimarães Rosa, um grande escritor ambíguo, que cometeu o engano ou a impotência de uma confusão fatal: em vez de produzir uma linguagem, produziu uma língua. Mas isto também é outra história. É e não é. Pois a geopoética de Euclides, responsável pela fundação real do pais brasileiro, foi também o germe fecundante de uma escritura brasileira. Foi da raiz de Euclides, de sua áspera raiz de mandacarus, de seus gordos troncos de, oiticica, das touceiras de seus gravatas e suas macambiras ásperas, que se abriu, afinal, na primeira metade deste século, a flor da escritura nativa deste país. A flor dessa escritura não está no brilhante mulato francês, aculturado brasileiro, chamado Mário de Andrade, mas na violência telúrica do romance nordestino, na escritura elementar de José Lins do Rego ou de Graciliano Ramos. Escritura que é a mesma de um outro texto fundamental da geopoética brasileira - "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. Parece, de certo modo, um paradoxo situar no mesmo nível a escritura singela e seca de Graciliano, de Gilberto, de Zélins, com a abundância barroca da escritura de Euclides. Mas isto é próprio da dialética estrutural do barroco. Basta olhar a estupenda arquitetura das cidades mais pobres de Minas Gerais, ou de Olinda, Penedo, e assim por diante, Basta ,ver a severa arquitetura bandeirante, os móveis séculos, riscados e cortados pelo homem das bandeiras, as ruas de casas de beiral baixo nas cidades pobres do Nordeste, para se entender essa dialética do barroco, em que o esplendor dos cachos de ouro pendentes das colunas se suporta nas linhas de serena e limpa pobreza dos portais de pedra lisa ou de mera madeira virgem. Dir-se-ia que os adornos e os tauxiados, os tetos apainelados das igrejas opulentas servem apenas para dar glória e relevo à beleza simples e verdadeira do mero espaço. As firulas de antropologia, de geologia, de botânica que adornam o texto euclideano são apenas a margem da picada que abre para o conhecimento do homem e do chão brasileiros, em última análise, o homem em sua plenitude, o homem e sua circunstância. Não é por acaso que o grande livro de Euclides nasceu de uma reportagem. Nenhum texto se aproxima tanto do poema, como o texto da reportagem, da boa reportagem, em que o autor se demite de seus próprios conceitos e preconceitos, para nomear a coisa, o lugar, a pessoa e a relação entre essas três vigências - o fato - que é o drama propriamente dito. Para entender "Os Sertões" seria bom lembrar que, muito antes de se dar à aventura do texto "escrito com um cipó", Euclides freqüentava as Musas e compunha versos, na esteira da vigorosa voz de Castro Alves. Suas obras completas incluem vários poemas, nos quais a áspera paisagem sertaneja e o idílio nemoroso da selva aparecem com irresistível fascínio do espírito em busca de si mesmo: "Se vagares um dia nos sertões, Como hei vagado.......... . . . . . . . . . . Se sondares da selva a entranha fria Aonde dos cipós na relva extensa Nossa alma embala a crença, Se nos sertões vagares algum dia ... Companheiro! Hás de vê-la, Hás de sentir a dor que ela derrama Tendo um mistério, aos pés de um negro drama, Tendo na fronte o raio de uma estrela!..." Mário Vieira de Mello, num belo livro sobre as raízes do desenvolvimento brasileiro, ou antes sobre a face oficial da chamada civilização brasileira, mostra que foi da árvore do romantismo francês, do pior romantismo francês, que se nutriu a pobre e farfalhante folhagem cultural deste país. Se é verdade que um país só se funda quando é fundado culturalmente, isto é, quando sua identidade é conhecida e cultivada, não será demasia, datar de Euclides a fundação da cultura brasileira, datar dele também a fundação do pais o momento em que a inteligência nacional se encontra com o povo e com a terra. É por isso que o conhecimento de um país, seu comando e seu destino, são sempre objeto de uma geopoética nacional. O próprio Euclides adverte, no prefácio que escreveu aos "Poemas e Canções", de Vicente de Carvalho, que a visão poética era capaz de produzir melhor a expressão do país, que os números, os diagramas, as doutrinas e as matemáticas do engenheiro. "Solo poeticamente se aparece" - diria o poeta maior, com relação ao aparecimento dos países. E no grande canto da "Amereida" - que é uma espécie de Eneida América, o poeta, como se interrompesse de repente a contemplação do continente, exclama: "América épica?" E ele mesmo responde: "Sarmiento no miente, Euclides no olvida, Juana la monja su dedal nos cose". A menção conjunta desses três inventores da América não ocorre por acaso. Ninguém pode falar de continente sem ter estado neles, nem de cidades sem ter errado por elas. Só ás pode comunicar, só pode usar a linguagem que as expressa, quem se serve da mediação da experiência. Os lugares, como as coisas, só aparecem para os homens depois que alguém lhes diga o nome. Euclides foi o primeiro a dizer-nos o nome do sertão, que antes dele era uma lenda, uma vaga história sem contornos. Foi com ele, que nos demos conta de que o Brasil inteiro era um "sertão" - o desertão dos conquistadores. Talvez a etimologia nos ajude ao entendimento da inexistência nacional do Brasil naquele tempo. O sertão é o desertão, o deserto grande. E o "deserto" ("de-sero") é uma região sobre a qual os homens não lançam uma semente. Na dicotomia spengleriana entre a cidade e o campo (vide o belo livro de Joaquim Ponce Leal, "Os Homens e as Armas"), é que os povos chegam ao conflito criador entre as duas vigências da nação, que só no confronto assumem sua identidade. A cidade só está realmente fundada, quando toma conhecimento do -campo, e o campo só passa a existir quando é alcançado pela surpresa da cidade. Sem tal encontro, o pais é um "desertão", um solo sem sementes, uma dicogamia, uma dislogia de estéril solteirismo. O país começa a existir quando a cidade e o campo se confrontam. O primeiro confronto é sempre uma guerra - e aí podemos ir além das próprias teses de Spengler. Nesse confronto, os homens tocam pela primeira vez numa zona de pele ainda intata da história, para usar a expressão de Ortega y Gasset. É para este momento inaugural que Euclides reclama a precedência de seu sangue de poeta sobre seu espírito lógico de engenheiro. O episódio de Canudos não é entendido nem pelos generais, nem pelos políticos, nem pelos sertanejos de Antônio Conselheiro. Uns e outros travam seu duelo nos limbos da história. Só ele sabe que um povo vai nascer naquelas rudes terras ensangüentadas, e que os aglomerados humanos, de um lado e de outro, passarão a ser um povo. Alberto Guerreiro Ramos, talvez o único sociólogo brasileiro com uma visão geopoética de nossa história, diria que até o testemunho patético de Euclides sobre Canudos, o Brasil da cidade não tinha "povo". Tinha apenas um "público". O @(povo" foi criado ao sopro da palavra de Euclides da Cunha, a palavra criadora, soprada sobre o barro do arraial do Conselheiro, e sobre o barro da pobre inteligência dos soldados e dos generais, vindos do "desertão" da cidade, e que não sabiam bem porque estavam matando nem porque estavam morrendo. As próprias passagens de "Os Sertões", em que Euclides adorna de referências geológicas ou fitológicas o texto violento da epopéia, são como um contraponto de testemunho à estrofe dramática, à semelhança do coro na tragédia grega. Pois, na verdade, como queria Efraín Tomás Bó, "a realidade americana parece surgir de um conúbío entre homens e natureza". Não será por acaso que o fascínio desse conúbio está presente em todos os clássicos, que fundaram a literatura americana e, pois, que fundaram a América. José Hernández ("Martin Fierro"), o mais ingênuo desses fundadores, quase um primitivo, diz, na carta-prefácio de seu livro elementar, que seus "gauchos" peleadores e glosadores, eram todos "filhos da natureza". Não há dúvida de que os episódios e os personagens históricos dessa literatura inaugural - também o Conselheiro em "Os Sertões" - ao se fundirem com os elementos, assumem uma aparência fantástica e surreal. A própria história de Canudos e de seu herói rompe os limites do natural. Estamos diante do sobrenatural. Por isto mesmo, fora do mundo lógico. No mundo mágico da epopéia, do puro poema, pouco importando a medíocre classificação escolar que lhe atribuam os pobres professores de literatura acadêmica. O "epos" é a matéria-prima da poesia, como do romance. E o romance é também história, talvez a melhor forma de escrever a história, sua melhor versão. Nenhum historiador, nenhum livro de história, nos dará um conhecimento tão vivo da guerra napoleônica na Rússia czarista, como "Guerra e Paz", o romance de Tolstoi. Como nenhum historiador nos terá dado uma expressão tão fiel de certo trecho da sociedade inglesa, como "Vanity Fair", o romance de Thackeray. O homem possuidor da natureza, o homem cúmplice da terra e solidário com ela, é um ser que se recusa à solidão entre as coisas inertes, num mundo dessacralizado, e se dispõe a hospedar outras figuras e entidades que rompam seu isolamento - como observava o filósofo Vicente Ferreira da Silva, propondo uma "concepção transhumanista da vida". "Há uma idade - lembra Efraín Tomás Bó - em que o povo engendra e consagra poeticamente seus heróis". É a idade de Euclides, a idade de "Os Sertões", a idade em que nasce realmente o país. A idade heróica é sempre "primitiva, anárquica, sem um organismo político robusto, que coarte o esforço prepotente de indivíduo". Essa é a atmosfera -própria da epopéia, e a epopéia é própria do nascimento dos povos. No âmago da epopéia está o nascimento do ser humano. Euclides sabia disso N "Euclides no olvida", repetindo o poeta. A descrição de Canudos é uma estrofe exemplar: - "Canudos tinha naquela ocasião - foram uma a uma contadas depois - cinco mil e duzentas vivendas; e como estas, cobertas de teto de argila vermelha, mesmo no ponto em que se erigiam isoladas, mal se destacavam, em relevo, no solo, acontecia que as vistas, acomodadas em princípio ao acervo de pardieiros compactos em torno da praça, se iludiam, avolumando-a desproporcionadamente. A perspectiva era empolgante. Agravava-a o tom misterioso do lugar. Repugnava admitir-se que houvesse ali embaixo tantas vidas... Havia mulheres e crianças sobre que rolavam durante três meses massas de ferro e de chamas, e elas punham muitas vezes no fragor das refregas a nota comovedora do pranto" ... Nada mais alto na descrição da agonizante Tróia cabocla do que essa breve anotação de um gemido de mulher, de um choro de criança. Em "Os Sertões", em todo o documentário da grande aventura, no texto de "Canudos" - "Diário de uma Expedição" - quase um diário íntimo, está toda a história vestibular do homem brasileiro, o soldado que nascia para a cidade, e o sertanejo nascido para sua gleba elementar, fora da qual só resta um caminho para o profeta que tomba entre as imagens de seu templo: - a embaixada aos céus, para o diálogo definitivo com os deuses. "Não há manhãs que se comparem às de Canudos anota Euclides no "Diário" - nem as manhãs sul-mineiras nem as manhãs douradas do Planalto central de São Paulo se equiparam às que aqui se expandem num firmamento puríssimo, com irradiações fantásticas de apoteose". A essa apoteose da natureza se junta a apoteose dos homens, erguida sobre o chão embebido de sangue, sobre as pirâmides de cadáveres, sobre o profeta derelito, abraçado à cruz e morto de borcos em sua catedral despedaçada, com as cornetas militares anunciando a vitória e o hino à República estrugindo das gargantas roucas da soldadesca. A rendição de Canudos foi o coito final entre a cidade e o campo, quando a vida e a morte se conheceram no leito nupcial do sertão rendido. E é só então que Euclides profere o epitalâmio amargo da raça que fundaria a nação: - "Via-se, então, pela primeira vez, em globo, a população de Canudos; e, à parte as variantes impressas pelo sofrer diversamente suportado, sobressaia um traço de uniformidade rara nas fisionomias mais características. Raro um branco ou um negro puro. Um ar de família em todos delatando, iniludível, a fusão perfeita de três raças. Predominava o pardo lídimo, misto de cafre, português e tapuia - faces bronzeadas, cabelos corredios e duros ou anelados, troncos deselegantes; e aqui e ali, um perfil corretíssimo, recordando o elemento superior da mestiçagem. Em roda,' vitoriosos, díspares e desunidos, o branco, o negro, o cafuz e o mulato proteiformes com todas as gradações da cor... Um contraste: a raça forte e íntegra abatida dentro de um quadrado de mestiços indefinidos e pusilânimes. Quebrara-a de todo a luta. Humilhava-se. Do ajuntamento miserando partiam pedidos flébeis e lamurientos, de esmola ... Devoravam-na a fome e a sede de muitos dias". E será sempre um "memento" para a história do homem e do país, repetir o epílogo de "Os Sertões", que tem um título definitivo: "Canudos não se rendeu". Ninguém, no Brasil, terá um dia meditado eficazmente sobre o destino da nação, se não houver lido, até guardá-la de memória, a estrofe final - a "cata-strofe" - do holocausto e da catarse: - "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam cinco mil soldados". ..."Caiu o arraial a 5. No dia 6, acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, cinco mil e duzentas cuidadosamente contadas". Antes disso, um dos prisioneiros, interrogado por um oficial do exército sobre a razão ou a recompensa que se justificava aquela luta até à morte, sob o comando do pálido profeta cearense de Canudos, respondeu, com sereno orgulho. - "Salvar a alma". Certamente a resgataram. Como Euclides, ao fundar sobre o episódio estupendo sua geopoética da nação, salvou a alma do Brasil. Esta alma que está na frase curta e decisiva do canto final de "Os Sertões": - "Canudos não se rendeu". E se alguém nos indagar de que lado estava a alma do pais, quando se defrontaram os quatro últimos guerreiros - um velho, dois homens feitos e uma criança - com os cinco mil soldados que rugiam raivosamente diante deles - a resposta possível será esta: dos dois lados. Mais, porém, muito mais, do lado dos fiéis à palavra do Profeta. Pois foram eles, verdadeiramente, que pagaram com seu sonho e com seu sangue a salvação da alma. Da alma de cada um, e da alma desta nação que, ao invés de dormir eternamente em berço esplêndido, e, na verdade, açoitada para a vida no leito de mandacarus do sertão de Canudos. ------------------ Gerardo Mello Mourão Restauração em Cristo Não é verdade que a Igreja Católica tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes GERARDO MELLO MOURÃO O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo''. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração'' apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu'', de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos. O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai. Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?'' ``Pois eu sei mais do que isto'', respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante. Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes.'' No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90% os cristãos na Europa e nas Américas. Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening'' do sr. Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis. Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff. Mas o ``bispo'' Macedo reúne muito mais... A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político. Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs'' e dos aiatolás de Khomeini. Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff. Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé. Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82. (in Folha de São Paulo 10/10/96 Leia obra sobre Jorge de Lima ------------------ ------------------ ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão "Uma Honra, Perigosa Privilégio" Conta Serge Lifar que, ao receber um troféu de ouro, na Sagração da Primavera, Nijinski, Vaslav Fomitch Nijinski, o bailarino que dançava para dar glória a Deus e que escrevia no espaço a imagem efêmera e eterna de seus gestos e o sortilégio de seu corpo, recebeu a incubência de falar em nome dos demais agraciados. Ele, que não sabia fazer outra coisa, a não ser dançar, embaraçou-se, tropeçou, escorregou e caiu no palco. É o que temo que me aconteça aqui. Pois, além da emoção e da honra de receber pelas mãos fidalgas de Yolanda Queiroz, a Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, nesta Sagração da Primavera de 1996, querem os ritos da cerimônia que eu fale também pelos outros contemplados. É uma honra. Um perigoso privilégio. Como poderei expressar a graça e o encantamento de nossa grande Sinhá D'Amora? Ela é até minha prima distante - mas vamos nos aproximando. Pois, também eu pertenço ao clã daquela Dona Federalina Correia Lima. Sinhá D'Amora, hoje na adolescência pristina, de seus noventa anos, está no meu conhecimento e no meu bem-querer desde 1935 ou 36. Desde então, acostumei-me a encontrá-la no salão azul de minha doce e inesquecível amiga Julinha Galeno, que mantinha um verdadeiro Consulado do Ceará em sua bela casa de Ipanema. Guardo, daqueles tempos, a memória de sua leve estampa de mulher elegante e seus olhos sábios de ver as coisas e as pessoas, sempre ao lado da figura cavalheirisca e cordial de seu marido, Amora Maciel. Lembro-me de uma de suas primeiras exposições, creio que no salão mais conspícuo do Rio, no Palace Hotel. Seus pincéis, que já sugeriam um trânsito refinado entre o impressionismo francês e o expressionistas alemães, levaram depois suas cores e suas formas aos melhores espaços da Europa e dos Estados Unidos. O que ela recebe hoje é a gratidão do Ceará pelos momentos de beleza que nos traz. A mão e os olhos de um pintor, transfigurados em formas e cores, são sempre, como no verso de Keats, "a thing of beauty, a joy forever". Uma coisa de alegria, uma beleza para sempre. Por isso ela é hoje aqui agraciada, como na velha cantiga da infância, ao lado de três cavaleiros que a saúdam, todos três chapéu na mão. Um deles é o meu velho amigo, o Dr. José Bonifácio da Silva Câmara, cheio de títulos e serviços na vida pública deste País. Mas o título maior, o que o traz a esta celebração, é o amor simultâneo pelo Ceará e pelos livros. Sou um velho rato de bibliotecas. As vivas e as mortas. Recebi, não faz muito tempo, um pequeno tratado de Umberto Eco sobre o corpo e a alma das bibliotecas. Com ele, percorri alguma delas. Como visitei, com Jorge Luis Borges, em seus delírios, no apartamento da Calle Maypu, em Buenos Aires, a Biblioteca de Babel e seu labirinto de livros, alguns em línguas que não existem mais. Como visitei, com Umberto Eco, as legendárias bibliotecas poligonais, de Nínive e de Samos, a de Pisístrato, em Atenas, e a de Alexandria que, com a de Serapion, tinha 700 mil volumes no século I. Vimos a de Pérgamo e a de Augusto e as 28 bibliotecas de Roma, do tempo de Constantino. E visitei, com minha mulher, as impressionantes bibliotecas de pedra na China e na Cochinchina, em Hanói e Xian, onde os livros são insculpidos na beleza rupestre das lâminas de granito. Mas a biblioteca que mais me comoveu, na verdade, foi aquela de mais de 6 mil volumes, na casa de José Bonifácio, todos eles escritos e editados no e sobre o Ceará. Como sabemos todos, a palavra biblioteca vem do grego - biblos - que quer dizer - livro - e - theke - que quer dizer - armário - e, pois, significa "armário de livros". A de José Bonifácio deveria se chamar "cardioteca" - é um armário do coração. Ou "pneumoteca". É um armário do coração e do espírito de nossa pátria cearense, de nosso País do Ceará. Naqueles livros e naquela biblioteca, faiscada em livrarias novas, em sebos de livros e nos empenhos de amigos, está assegurada a sobrevivência de cada um de nossos escritores. E a sobrevivência de nossas raízes. Outro agraciado é o Dr. Luiz Esteves Neto. Sua vocação o transformou numa presença humana, exemplar e fecunda, na vida da sociedade cearense. Talvez não tenha nunca pintado quadros, como Sinhá D'Amora, nem guardado livros como José Bonifácio, nem escrito elegias, como este vosso cantador. Mas sem homens como ele nenhum de nós estaria aqui. Participante efetivo das atividades sociais, seu nome é um emblema da vida econômica e da vida associativa. Industrial, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, sua representatividade o levou aos órgãos de direção da Confederação Nacional da Indústria, para onde levou a fibra e o vigor dos capitães de empresa de nossa terra. Seu nome figura na nominata egrégia dos clubes sociais e dos grupos de construção da riqueza e do desenvolvimento. Luiz Esteves Neto é para nós, aquilo que nosso filósofo maior, Farias Brito, chamava "a base física do espírito". Homem de formação universitária, ele poderia ter escolhido qualquer outro tipo de ocupação, nas áreas da inteligência. Escolheu esta, para dar à sociedade que pertencemos, horizontes melhores à esperança do desenvolvimento. Quanto a mim, pobre cantador das Ipueiras, do pé-da-serra da Ibiapaba, aqui estou com único cabedal maior que mereservou a vida: - a riqueza de ser cearense. No país do sul, nas opulentas babilônias de São Paulo, com seus milhões de descendentes de primeira geração de imigrantes, algumas pessoas invocam a nobreza de suas origens, como na exclamação famosa de Alcântara Machado: - "Paulista eu sou, há quatrocentos anos". Em nossa terra, aonde quase não chegou a vaga de imigrações da segunda metade do século passado e das primeiras décadas dos novecentos, todos nós, quase todos nós, podemos proclamar, como eu mesmo o faço: - "Cearense eu sou há quatrocentos anos". O que em outras terras é privilégio de uns poucos, aqui é patrimônio de todos. A este patrimônio, devo as vigências mais profundas que me nutriram ao longo da vida. Teria eu de seis para sete anos, quando minha mãe, pobre professora primária do interior, me fazia decorar páginas inteiras do romance lírico de José de Alencar, cantando os verdes mares bravios e, ao mesmo tempo, um poema grandiloqüente, ufanista e saborosamente ingênuo, de nosso poeta popular, Juvenal Galeno, que ainda hoje sei de cor: "sou cearense e me ufano"... Estas foram as primeiras plantas enraizadas no chão de minha alma. Depois, foram os cantadores de feira, especialmente o cantador Anselmo Vieira, das Ipueiras, catalogado por Leonardo Mota. Com eles aprendi o ritmo cantante das redondilhas maiores, dos decassílabos de gabinete e dos hendecassílabos sonoros, cantando galope na beira do mar. E aqui lembro - e rendo-lhe uma homenagem - um agraciado da Sereia de Ouro, desaparecido este ano, meu saudoso amigo Eleazar de Carvalho, o egrégio mestre-de-capela, que teve entre seus discípulos até mesmo o mais famoso maestro do mundo em nossos dias, Zumbin Mehta. Eleazar de Carvalho também me dizia um dia que toda a sua disciplina musical se edificara no metro escandido dos cantores de viola e de rabeca nas feiras do Ceará. Afinal, Homero também foi um cantador de lira nas feiras da Jônia. Nos labirintos do saber e da cultura erudita, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: - acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo". Se isto ocorrrer, à uma coisa eu o devo - à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos. Ainda recentemente o Presidente da República se queixava do caráter provinciano de nosso povo. Aprendi com meu saudoso amigo, o presidente Eduardo Frei, do Chile, uma linção fundamental: a distinção entre provincial e provinciano. Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe para ele. Já o provincial é o homem que assume a identidade de sua província, e é capaz de confrontá-la com as outras províncias do mundo. O provincial alarga as fronteiras de sua provincialidade. O provinciano se esgota em seu provincianismo. Alguns dos territórios mais orgulhosamente florescentes no Brasil, são mesquinhamente provincianos. Já a tribo dos cearenses é uma tribo provincial, de vocação aberta e cosmopolita. Este acontecimento da Sereia de Ouro é um testemunho de nossa provincialidade. Ele traz a marca, o gênio, a generosa audácia do nome de Edson de Queiroz, um ser humano em que só o coração terá sido tão grande como a vocação para a grandeza. Superando as temerárias e admiráveis ousadias malogradads de outro cearense, o grande Delmiro de Gouveia, Edson Queiroz foi, na verdade, o primeiro gigante, não apenas do Ceará, mas de todo o Norte-Nordeste, cavaleiro sem medo e sem mácula das batalhas empresariais, a dar uma resposta de nossa região à grandeza econômica fundada no sul do país pela audácia empreendedora de Irineu Evangelita de Sousa, o Barão de Mauá. E no confronto com Mauá, arrimado muito por concessões nacionais e estrangeiras, a prodigiosa figura de Edson Queiroz se agiganta e cresce. Seu perfil de empresário não encontra paralelo no Brasil, na escala das condições geográficas em que se ergueu. Alguns intérpretes da realidade política e social deste País costumam dizer que no Brasil não há mais homens exemplares. Pois o Ceará oferece à nação um nome exemplar, de nossos dias. Homem poliédrico, sua presença múltipla ocupa os mais diversificados campos da atividade industrial, para projetar-se nas safras da inteligência e da cultura, com os órgãos de comunicação do Sistema Verdes Mares e com a admirável Universidade que fundou. Eu não tive a felicidade de viver em minha terra. O breve intermezzo de minha permanência no Ceará, ficou, porém, indelevelmente gravado em meu coração e em minha consciência. Tanto quando das figuras familiares que povoaram minha infância, quatro linhas riscaram para sempre o mapa de meus afetos e de minha memória nesta cidade de Fortaleza: - o santo Arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa, o querido e também santo Padre Arimatéia Antunes Diniz, o inesquecível amigo fraterno Vicente Gaspar e o bravo, lúcido, intimorato e intemerato Edson Queiroz, Capitão-mor da capitania hereditária da alma e da vontade de grandeza do Ceará. Capitania hereditária, sim, porque o facho que estava nas mãos daquele corredor olímpico das façanhas empresariais, está hoje, aceso e fulgurante, nas mãos de sua mulher, Yolanda Vidal Queiroz, primeira-dama da inteligência, da beleza, do bom-gosto e da alegria de viver do País do Ceará. É o clarão deste facho que ilumina as galas desta noite. ------------------ ------------------ ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Discurso ao Receber o grau de Doutor Honoris Causa na Universidade Federal do Ceará Meu venerando amigo Austregésilo de Athayde, pernambucano por acidente, mas cearense de sangue e cepa, e até meu parente pelo costado dos Feitosas dos Inhamuns, costuma contar uma anedota exemplarmente nordestina. Chegado de Paris, onde pronunciara um discurso histórico na Assembléia Geral da ONU, sobre a Declaração dos Direitos humanos, de cujo texto fora o redator principal, foi ao Recife, para contar a história à sua mãe. Certo de que o episódio a encheria de orgulho, ao saber do filho aplaudido por todas as nações da terra, na tribuna mais alta do planeta, o que ouviu foi quase um muxoxo de desdém: "É - respondeu-lhe a velha mãe nordestina - mas você nunca discursou no Teatro Santa Isabel". O Teatro Santa Isabel era o palco maior, o símbolo conspícuo, das grandezas e da glória regional de sua honra pernambucana. Falar ali, na tribuna egrégia em que ressoaram as vozes de Joaquim Nabuco de Castro Alves e de Tobias Barreto, as vozes de sua raça e de sua tribo, de sua história e de suas raízes, isto sim, é que era a coroa de louros e a taça de ouro de uma carreira olímpica. O laurel imarcessível com que o "vir gloriosus" podia destruir o provérbio pessimista de que ninguém é profeta em sua terra. Hoje, que me chamastes às galas da Universidade Federal de minha terra, sobe-me ao coração um orgulho novo. Pois, ao contrário do pernambucano ilustre, que nunca chegou ao palco do Santa Isabel, o menino assombrado que partiu, num ano já remoto, de seus pés-de-serra da Ibiapaba, e atravessou os verdes mares bravios para as aventuras de achamento e perdição do mundo, está recebendo de vós uma dádiva surpreendente - a de entrever, no fundo deste salão, a sombra de sua velha mãe, boa e brava professora primária em terras de Ipueiras, Cratéus, Nova-Russas e da antiga Campo Grande, murmurando comovida: - O menino está falando aos doutores maiores de minha terra, na tribuna mais alta do saber de nosso pais do Ceará Grande. É para essa sombra morta no passado, agora viva na memória do menino antigo, que se voltam os olhos enternecidos e o coração, de repente tomado aos tempos aurorais da infância. Desse velho coração sofrido, que sempre bateu por tantas peripécias, por tantos céus, por tantas terras, por tantos mares, mas que sempre guardou e guardará, enquanto latejar no peito, sua batida mais forte, pelas coisas, os lugares e as pessoas do chão de onde brotamos. Do chão de onde nunca arranquei a raiz do próprio ser. Olhai bem para mim, doutores e estudantes que aqui estais. Olhai bem para mim, Pois, aqui estou corno o avatar vivo, o abantesma de tempos e lugares remotos. Que caminhos pisaram meus pés andarilhos e inquietos até chegar a esta noite? O erudito seiscentista Johanhes Amós Kotnensky, conhecido na história da literatura por seu nome latino, Comenius, hussita herético, nascido na Morávia, que ensinou em Praga e em Londres, autor de alguns monumentos da erudição européia, corno o "Amphlteatrum Universitatis Rerum" e a "Didactíca Magna", sustenta que "a natureza produz tudo a partir da raiz" e ensina: - na árvore, tudo o que virá a ser a madeira, a tasca, as folhas, as flores e os frutos, não provém senão da raiz". E conclui, dizendo que o ser do homem não se mantém e não floresce, se não estiver permanentemente plantado em suas raízes. Venho de longe, de muito longe, senhores. Se depois de uma saga pessoal dramática, de astres e desastres, aqui continuo de pé, é porque a dura casca deste peregrino de si mesmo, apesar de todas as peregrinações, nunca deixou de estar aderida ao tronco que se ergueu das raízes, mergulhadas no fundo da terra. Venho, assim, de muito longe. Cearense há quatrocentos anos, estou para cumprir quinhentos anos de nordeste. Fui amassado no barro das Ipueiras, nos vales e sertões do pé-da-serra da Ibiapaba, terra de barro bom pra homem. Nunca me saíram da memória da retina as palmeiras e os chapadões da serra azul, por onde os jesuítas temerários escreveram com o próprio sangue o capítulo inaugural da primeira navegação mediterrânea do Brasil, singrando o sertão e a cordilheira, entre o Ceará e o Piauí. Guardo nos ouvidos da memória o estrondo dos bacamartes com que meus antepassados, Mellos e Mourões, se engolfaram na guerra fratricida, sustentada pela bravura do Coronel José de Barros Mello, oito vezes meu tetravô, chamado "O Cascavel", ao enfrentar a fúria vingadora de seu cunhado e primo-irmão, também meu tio-tetravô, o indomável Alexandre Mourão, que levou sua guerra até o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco, com a galhardia romântica de um capitão da Renascença. Venho de longe. Da salva das escopetas, das lazarinas de pederneira e cano longo e dos rifles papo-amarelo com que as rudes baronias rurais de nossa terra fundaram este país. Venho da grandeza trágica de meu endecavô, o Coronel Manuel Martins Chaves, que sofreu a felonia da traição do infame Marquês de Aracati. Venho da ponta da espada de meu quarto tio, Antônio Ferreira de Sampaio, sobrinho do General Sampaio, meu tio-bisavô, que com ela riscou o peito insolente do governador Oyenhausen na casa grande entre as Ipueiras e o Campo Grande. Venho de longe. Venho do sangue de meu tio-avô, Padre Inácio Mello, seqüestrado em Cratéus, castrado e assassinado no caminho da Paraíba por oito sicários. Dez dias depois, os oito eram com Cristo, segundo as ordens e as armas de outro tio-avô, o Padre Doutor Luiz Lopes Teixeira, e de meu bisavô, o galante Coronel Alexandre de Barros Mello. Venho de longe, de muito longe. Venho das balas do sargentão Jacó Niemeyer que vararam o peito do meu oitavo tio, o Padre Gonçalo Mello, chamado o Mororó, fusilado em Fortaleza, no Campo da Pólvora, na revolução de 1824. Venho da batina ensangüentada do Padre Joaquim Mourão, ainda hoje guardada num baú de couro reúno por meu primo Raimundo Mourão, em seu engenho da Serra dos Cocos, arcabuzado nas rixas políticas do Maranhão, Venho da lua da sela do alazão do meu segundo tio, o Coronel Quintino Benjamim Lopes, que ali me aconchegava junto a seu bacamarte vigilante e às pistolas de coronha de madrepérola, no caminho do engenho de Águas Belas. Venho do tempo em que os fundadores do mundo, no vale, na serra e no sertão, nominavam as coisas, os lugares e as pessoas, como o fizeram os primeiros protagonistas da cosmogonia nos tempos aurorais, de Adão a Deucalião. Pois, até os bacamartes dos capitães de aventura recebiam nome e identidade, como os de Alexandre Mourão que se chamavam, entre outros, "Luar da Serra" e "Galo de Campina". Venho de mais longe ainda, pois as raízes familiares em que me planto mergulham naquela touceira de soldados, marinheiros e pastores de ovelhas, partidos de Macau e de Lisboa, como Duarte Coelho e Pero Lopes de Souza. De seus bagos venho. Venho do tutano de nossa raça, cearense e nordestina, onde todos somos fidalgos e todos somos plebeus. Assim como o historiador alemão sustenta que toda a população de seu país descende de Carlos Magno, aqui, todas as nossas genealogias, douradas ou rústicas, mergulham na velha raiz dos Albuquerque e dos Cavalcanti. Descendemos todos daquele proteico e generoso Jerônimo de Albuquerque, a quem a lenda atribui a façanha de ter sido pai de duzentos filhos, e que foi o fundador maior do país do Nordeste. Venho do tropel das armas de meu sexto-avô, o Capitão-mor Vítor de Barros Galvão, que atravessou a Ibiapaba para, instalar-se como Governador do Piauí, na velha capital de Oeiras. Venho da bengala de estoque de meu tio-avô Padre Feitosa, que com ela chuçou os peitos do capitão, na porta da cadeia de Cratéus, onde 1.500 Mellos e Mourões, das Ipueiras, da Serra dos Cocos, da Canabrava e do Tamboril, atropados por meu tio-avô, o Coronel Alexandre Mourão Quinto, - o quinto de seu nome em sua raça - ao lado do meu avô, Capitão José Ribeiro Mello, de meu bisavô, o Major Chiquinho, e de nosso primo, Major Borete Mourão, arrancaram da prisão nosso primo Coronel Correia Lima, chefe político da região. Venho da rosácea amarela da Casa Grande do Coronel Domingos Mourão Filho, na praça de Pedro II, com sua fachada ainda hoje tauxeada pelas cicatrizes do tiroteio de um governo arbitrário que enfrentou e derrubou, levando seus rifles liberais até Teresina. Venho destas raízes, que são as próprias raízes do Ceará. O menino de Ipueiras não queria despegar-se dessas raízes, nem fisicamente. Por isso, naquele tempo, comecei a ouvir com certo terror, os projetos de minha mãe, que, diante das dificuldades da instrução em nossa região, começou a conspirar para levar-me para o Rio, onde poderia estudar, aos cuidados de uns tios generosos. Não havia, em nossas redondezas, sequer um ginásio para a formação de escolares. O saudoso professor Solon Farias, em Cratéus, foi o primeiro homem a me dar a impressão de uma pessoa prodigiosamente inteligente e cheia de saber. Por onde andará, se é que ainda está vivo? Meu tio Tabajara Mello cedeu-lhe ou arrendou-lhe uma sala, onde montou, com seu irmão Antônio Farias, uma aula para o que então se chamava em Cratéus, os meninos e rapazes adiantados. Foi o primeiro a seduzir minha mãe com a idéia de levar-me para o Rio. E um dia, reunidos na velha casa de meu avó, nosso primo Chagas Barreto, dos Mello Barreto, de Sobral, que era o que hoje se chamaria um industrial progressista - tinha uma fábrica de sapatos e instalara o primeiro elevador da cidade - e ainda o nosso vizinho e meu padrinho de fogueira, Hugo Catunda, que me dava livros e revistas para ler, mais nosso primo Ignácio de Mello Falcão, vereador perpétuo, orador contumaz e redator dos manifestos políticos do município, decidiram com minha mãe: - "Você tem de levar este menino para estudar no sul". E o velho e poderoso Padre Feitosa, também nosso primo, que me dera de presente um velocípede francês, o único velocípede que circulava nas Ipueiras, e creio que era na época Senador estadual, virou-se para minha mãe e disse: - "Vou dar-lhe de presente a única casa que possuo em Ipueiras. Passo a escritura amanhã no cartório do compadre Né Guilhermino, mas você vai levar este menino para o sul". O Chagas Barreto exaltou-se: "Leve o menino. Este menino vai ser um profeta, e ninguém é profeta em sua terra". Com sua contumácia oratória, Ignácio de Mello Falcão, o orador da terra, começou a fazer profecias exaltadas sobre o gênio do probre menino de Ipueiras. Minha sorte estava selada. Mas as raízes do menino estavam profundamente presas ao chão de seus avós. Preparou-se tudo: o enxoval, a viagem, as passagens no trem de ferro até Sobral, primeira etapa do êxodo cruel. Mas no dia em que se marcara a partida, os parentes prontos para o bota-fora na casa amarela da estação de Ipueiras, o menino escapuliu pelo quintal, contemplou a grande cajazeira, os pés de ata, as goiabeiras, os pés de mulungu, de trapiá, de joá, da casa em que nascera, e desapareceu por uma porteira que dava para as barrancas do rio Jatobá. Correu pela beira do rio, com um companheiro solidário, e escondeu-se numa profunda moita de mofumbo, entre gitiranas em flor. Até hoje, guardo a paixão pelas gitiranas, e mais tarde aprendi de cor os versos antológicos das gitiranas, de nosso poeta Otacílio Colares. Adquiri o costume de recitá-los nas passagens de minhas estrepolias romeiras pelo oco do inundo, como resgate e penitência pela advertência sábia de minha avó, Dona Úrsula, a todos os que pretendiam emigrar em nossa família. - "boa romaria faz quem em sua casa fica em paz", Recitei-os à beira do Arno, nas manhãs florentinas da Toscana. Repeti seus decassílabos sonoros na travessia dos Alpes e na travessia da Cordilheira dos Andes. Habituei-me a declamá-los entre os gerânios chilenos de Viña del Mar, diante do mar Pacífico, em La Serena, nos jardins de Tegucigalpa, de Porto Rico, de Caracas, de Bogotá, de Lima, do México, da Guatemala e à beira do Lago de Granada da Nicarágua, onde morava um poeta, entre as mangueiras das ilhas lacustres. Pude repeti-los às águas do Tâmisa, do Sena, do Pó, do Tíbre, ao pé do Castelo de Santo Ângelo, e às ondas corredeiras do Ródano, perto da estátua rebelde de Calvino. Fiz ecoar a louvação das gitiranas pelos rios sagrados de Hoelderlin, na Alemanha, no cemitério judeu de Praga, diante do túmulo de Kafka corno diante do túmulo de Hoelderlin, onde se sentou Efrain, e da janela abandonada da casa de Rilke. Declamei-os na selva paraguaia, por onde andei foragido e nas barrancas do rio da Prata, em Buenos Aires, chão de Gofredo Iommi e de Raul Young. Clamei-os, do alto de Badaling, muralha da China, e no Rio Amarelo de Shangai e nas estepes da Mongólia interior, entre camelos e pastores espantados. Murmurei-os no golfo das Pérolas, entre Hong Kong e Macau. Ensinei-os aos poetas da Belle Province, no vale laurenciano do Québec e Osvaldo Peralva me gravou e filmou enquanto eu declamava em voz alta as gitiranas aos japoneses atônitos, diante do Buda de Kamakura, como sua doce mulher japonesa, a bela Yuko, o faria também na noite de Tóquio, entre os vinhos de sua casa de Minato-Ku. Repeti suas estrofes cearenses à varanda dourada da Deusa viva, em Katmandu, aos muçulmanos surpresos no portal da mesquita azul de Istambul, na travessia do Bósforo, em Missolonghi, onde morreu de febres terçãs o poeta Byron, nos templos de Huehot e na biblioteca de pedra do Vietnam. Quebrei com seus versos o silêncio augusto do templo de Apolo e da gruta da Sibila em Delfos, e um soldado grego me prendeu, quando, com o poeta caldeu Christos Clairis, escandi as gitiranas no espaço sagrado do Cabo Sumion, no templo de Poseidon. Um gendarme francês queria levar-me preso, porque eu interrompia o trânsito, cantando a flor silvestre das Ipueiras no Arco do Triunfo. E assim em toda parte, no país africano do Magreb, no cabaret de Casablanca e na Medina árabe de Fez, nas praias do Senegal, nas barrancas do Vístula e do Volga, nas pontes do Moskwa em Moscou, do Danúbio, em Belgrado, e do Alster de Hamburgo, do Tejo e do Gaudalquivir, entre as tulipas da Holanda e do Luxemburgo, na praça dourada de Bruxelas, à beira do Ganges sagrado, na índia, no vale do Líbano e nos velhos templos ensangüentados pela fúria comunista no reino do Camboja, na desolação do Laos, ao pé do Tibet, onde as tecedeiras de tapetes pararam assustadas, sem entender, na China, na Indochina, na Conchinchina, de Hanoi a Saigon, nas Coréias do Norte e do Sul, de Pyongiang e ao paralelo de Pan Mun Jon. Cantei as gitiranas das Ipueiras em Jerusalém, em Belém do Para e em Belém de Judá, no lago de Tiberíades, no Mar Morto, na feira de Cafamaum e na cripta de Nazaré, onde o Arcanjo Gabriel anunciou à Virgem o nascimento de Jesus. Cantei as gitiranas de minha fuga infantil contemplando os rios de Babilônia, nas terras que foram a Assíria e repeti as estrofes de minha terra junto aos jardins povoados de pavões azuis no memorial de amor do Taj Mahal, como o fizera entre as colunas do Partenon, do Pentélikon, do Olimpo e do Parnaso, nas fronteiras da Pushta húngara, na Croácia e em Sarajevo, na Dalmácia, na Moldávia, na glorieta do Hofburg e nos bosques de Viena. E se mais mundo houvera, lá chegara. Alegro-me que os versos sejam também uma lembrança de Otacílio. Mas eles são na verdade uma fidelidade ao país das Ipueiras, no dia em que, por amor às minhas raízes, fiquei protegido entre as flores de mel do mofumbo silvestre e as flores da gitirana, até ouvir o apito do trem que partia. Perdi a viagem, para desespero de minha mãe. Mas a decisão de minha diáspora era implacável. Marcado trem para a semana seguinte, as saídas do quintal estavam rigorosamente vigiadas, para impediar a nova fuga. Mas o menino não queria deixar seu chão. Havia lido, já não me lembra se no "Lunário Perpétuo", famoso almanaque português, que resumia a cultura de quase todas as nossas casas nordestinas, ou nalguma revista de meu padrinho Hugo Catunda, que, na Idade Média, os perseguidos e os condenados que se refugiavam no interior de uma igreja não podiam ser capturados. Duas ou três horas antes de irmos para a estação, de repente, cheguei à porta da rua, e numa carreira desabalada, alcancei a igreja, onde me considerei a salvo. Não conseguiram deter-me. Os perseguidores pararam à porta da matriz. Foi então, que meu avô, a presença mais afetuosa, mais sensível, mais compassiva e mais querida da minha infância, e ainda hoje a mais doce das lembranças de meu coração, entrou silenciosamente na igreja. Era um gigante louro, de olhos azuis, a fala viril, mas cheia de ternura. Pôs sobre minha cabeça a grande mão vigorosa e suave. Levantou-me, encostou no seu meu pequeno rosto moreno, um soluço profundo saiu-lhe do peito largo, e senti o sal de suas lágrimas. Segurando-me a cabeça, beijou repetidamente minhas bochechas banhadas de lágrimas, num gesto de carinho até hoje muito raro nos homens de nossa região, e pediu-me que o acompanhasse. Que confiasse em sua palavra. Que eu podia ir, porque voltaria com certeza, pois ele mesmo iria buscar-me. Foi assim que parti. Ainda hoje, a lembrança mais pungente de minha vida, é a de seus olhos azuis cheios de lágrimas, e do grande lenço quadriculado que usava, acenando para a janela do trem que partia apitando longamente, um apito de varar a alma, no rumo do Ipu. Depois, foi o mundo. O grande e estranho mundo. O Seminário holandês nas montanhas de Minas. Cresci e prosperei à sombra dos profetas barrocos do Aleijadinho, em Congonhas do Campo. Cresci pouco e prosperei menos. Depois, o Convento da Glória, a tomada de hábito em Juiz de Fora, onde o jovem clérigo, cumpridos os fervorosos estudos do latim e do grego, da Retórica e da Poesia, da Música, das Línguas vivas e mortas, das ciências e das artes - um verdadeiro curriculum de trivium e quatrivium, como se usava nos mosteiros medievais - era iniciado no conhecimento, na teoria e na prática da Ascética. Em seguida, deixou o menino a sombra do claustro, a serena beleza de suas vestes talares de clérigo de Santo Afonso, a celestial harmonia do canto gregoriano e o odor dos incensos sagrados nos turíbulos rituais. Caiu, então, no outro mundo, nesse triângulo das Bermudas em que desaparecemos, no abismo de cada dia, no trinômio de perigo e perdição e angústia, onde estão os aguilhões do quotidiano, a que os doutores da fé chamam de "os três inimigos do homem: - o mundo, a carne e o diabo". Entre esses três inimigos, o menino passou a viver perigosamente, por vocação e por aprendizado. Nietzsche, um dos mestres de sua adolescência, e ainda hoje um companheiro das horas temerárias do pensamento, acendeu-lhe a paixão de viver perigosamente - única forma pela qual o homem pode escapar às dimensões menores, que levam à vala comum. Conheceu e terçou armas - todas as armas - com o Senhor Diabo, com o Senhor Mundo e com a Senhora Carne. Conheceu a política, com suas glórias efêmeras, sua ambição de construir, a mais de sua história pessoal, a história da sociedade. Conheceu o poder e a queda. Subiu à tribuna dos parlamentos e freqüentou os palácios das salas de passos perdidos do poder. Venho de longe, de muito longe. Venho do subterrâneo das conspirações e dos golpes armados contra a tirania. Venho do fundo dos cárceres de duas ditaduras e comi, como o Dante, o sal do exílio, depois de fugir rocambolescamente aos esbirros da repressão, atravessando as fronteiras temerárias do Paraguai, para viver durante alguns anos entre a cordilheira e o mar, no doce e querido país do Chile. Chegou-me, então, a tempo, a lição de Camus, que me visitava, com o grande irmão negro, Abdias Nascimento, na Penitenciária do Rio de Janeiro. "Os outros - dizia o grande romancista perplexo - façam a política e a história. Nós, os artistas, poetas, não temos que fazer a história. Nossa tarefa e nosso dever, é sofrer a história." Sou o filho de uma geração trágica. A mais trágica deste país. olhai bem para mim: no mesmo peito que recebeu as medalhas e as contendas de chefes de Estado estrangeiros, recebi o furor das agressões nas salas de tortura do regime ditatorial por duas vezes instalado neste pais, em minha geração. Vi jovens e velhos torturados até a morte nos cárceres infames, seus corpos arrastados pelos corredores dos quartéis como uma posta de sangue. Na verdade, parece que vi tudo e o contrário de tudo ao longo dos anos. Mas as raízes do menino de Ipueiras permaneceram intatas, sempre sustentadas por uma âncora infalível: - a âncora da fé, guardada no forno do ser e incorporada à alma rios fervores do convento redentorista. Essa âncora da fé foi a âncora primeira, forjada no mundo mágico e intuitivo em que o regaço ardente da mãe, marcada pelo fogo cristão da mística, transmitiu ao menino a certeza de poder morrer cada dia e de cada dia nascer de novo, para que cada dia fosse corno o primeiro dia, como se o coração acabasse de sair das mãos de Deus. E assim permanecesse, ainda e sempre quente, do calor da mão do Creador que o pesava e media e modelava. A outra foi a âncora da Musa - a vocação da poesia, da beleza, a que sustenta o barco bêbado do poeta, isto é, do ser humano - uma vez que cantar é ser, como descobre Rilke - ria incessante navegação do artista para sua própria invenção da eternidade. Se vinha dos dias da infância a presença do sortilégio da poesia, o poeta, na verdade, recebeu seu sacramento de confirmação - o crisma - ao encontrar numa noite de bar, quatro outras almas gêmeas. Pois, éramos seis. Fomos armados cavaleiros quando aquele grupo de adolescentes, numa praça de Buenos Aires, resolveu queimar em praça pública tudo quanto até então escrevera, num pacto que se chamou "Pacto del Victoria", do nome do local em que nascera. Todo o compromisso do pacto foi escrito numa única linha: - "Ou Dante ou nada" . Por isso, queimaram-se todos os versos da "juvenilia". Não teríamos o direito de escrever o já escrito, de dizer o já dito. A rompante legenda adolescente nos sagrou cavaleiros da Senhora Poesia, da Senhora Musa. Passamos a chamar-nos por um nome secreto. Éramos a "Santa Hermandad de la Orquídea". A guilda órfica navegou todos os continentes e tentou lavrar todas as glebas do saber e do fazer poético. Éramos seis: - Efraim Tomás Bo, Godofredo Iommi, Juan Raul Young, argentinos, e brasileiros. Abdias Nascimento, Napoleão Lopes Filho e este vosso cantor. Dois de nós já partiram para a eternidade. Em nome da fidelidade ao absoluto, jurada no "Pacto del Victoria", Abdias Nascimento consagrou todos os seus alentos na vida, corno pintor, corno teatrólogo, como ensaista para a ressurreição de sua raça negra, instrumentando sua luta na ação política e na cátedra universitária. É doutor e Senador da República, mas tudo em nome da fidelidade àquela busca do absoluto que nos uniu na Santa Hermandad de la Orquídea. Godofredo Iommi é hoje o poeta maior da língua espanhola neste século. Raul Young abriu caminhos novos na poesia, no teatro e no cinema da Argentina. Napoleão pronunciou um voto religioso pelo qual se fez Cavaleiro da Virgem, que já o levou para a eternidade, depois de dele ouvir na terra a mais bela poesia religiosa de nossa língua. Efrain, que sabia tudo e o contrário de tudo, depois de uma vida rilkeana e às vezes díonisíaca, está já agora na mão de Deus, na Sua mão direita, como queria o poeta. Parte de sua obra foi publicada por nós, na Universidade Católica do Chile. Também por esse caminho, venho de longe, de muito longe, da adolescência da Santa Hermandad de la Orquídea. Conheci para sempre a castidade e o amor das Musas, a que sou fiel, "ego scriptor" - como se qualificava Ezra Pound, diante dos juizes ignorantes e dos carcereiros broncos do exército de seu país. Aqui estou também eu: "ego poeta". Pois, poeta sum". Eu sou o poeta do país dos Mourões, e como na frase humilde e soberba do testamento de Keats - "I think I shall be among the english poets, after my deathl" - também creio que estarei entre os poetas de meu país, depois de minha morte. Perdoai-me essas divagações bibliográficas, quando o que pareceria adequado, nesta aula de claustro pleno, seria uma confissão de fé no pensamento e no espírito em que se fundou o trabalho de um homem, que é apenas um poeta e não pretende ser senão um poeta, em cada palavra que se aventurou a escrever. A política, as revoluções e as aventuras que se hospedaram em meus dias e minhas noites, são apenas a sombra da asa da poesia, da Musa, a amante exigente e cruel, que exige tudo, o sangue e a vida de seus amantes. Eu comecei a conhecê-la nas ribeiras de minha terra, no alpendre dos engenhos da serra e da Macambira, nas feiras da Canabrava e das Ipueiras. Ali, nas rabequinhas de pinho e nas violas sertanejas, aprendi a rima e o ritmo, e aos sete anos era capaz de escandir as redondilhas, durante horas, sem quebrar uma sílaba. Um dia, no Congresso Internacional de Poesia, reunido em Londres sob os auspícios da Cátedra de Poesia da Universidade de Oxford, do Instituto de Artes da Grã Bretanha e do Suplemento Literário do "Times", o velho poeta e mestre da Poética, Robert Graves, e meu querido amigo, o então jovem poeta Jonathan Boulting, perguntaram quais eram os poetas a quem eu mais devia, quais as influências maiores do meu trato com a palavra poética, as influências que me levaram à aventura épica da trilogia dos "Peãs", com o "País dos Mourões", a "Peripécia de Gerardo" e o "Rastro de Apolo". Comecei a alinhar os nomes de minha devoção maior: o Dante, o Homero, Hoelderlin e Rilke, Baudelalre e Rimbaud, Gongora e Mallarmé, De repente estanquei, para dizer: - "o poeta que me despertou para a Musa chama-se Anselmo Vieira. Nenhum dos cinqüenta poetas de todo o mundo ali presentes sabia de quem se tratava. Anselmo Vieira era um caboclo das Ipueiras. Dele ouvi estremecendo a quadra épica que meu avô lhe pedira, para cantar sua família e seus parentes numa festa de São Gonçalo da Serra dos Cocos: "Antes do céu ter estrelas, E das nuvens ter trovões, Os Mellos já eram Mellos E os Mourões eram Mourões. Anos depois, descobria a bravata semelhante de uma famosa quadra espanhola sobre os Quiroz e os Velascos. Mas o tom épico da bravata de Anselmo sobre o clan familiar, foi talvez o primeiro germe da epopéia que tentei construir em torno de minha terra e de minha gente do Ceará Grande. Toda a lírica e toda a épica de que fui capaz, se algum mérito tiver, será o da fidelidade às raízes populares de meu país de serranos e sertanejos, onde todas as mulheres são belas e todos os homens são valentes. Toda poesia é cosmogônica. Entre as trezentas maneiras de fazer versos referidas por Elliot, e as trezentas definições de poesia alinhadas pelos culturalistas vadios, um único verso de Hoelderlin nos situa diante da mera face da Musa: - "Was bleibet aber, stiften die Dichter". Tudo o que permanece, a única coisa que permanece é aquilo que é fundado pelos poetas. Talvez por isso, por ter tentado fundar aquele rude país dos Mourões, com o cheiro da pólvora de seus heróis, ao clarão da lâmina das parnaíbas pontudas e ao trom dos mosquetões, é que O País dos Mourões mereceu a exclamação comovida de Carlos Drummond de Andrade: "- Esta poesia - escreveu ele - foi tudo quanto sempre desejei escrever na vida, e nunca tive força. Gerardo Mello Mourão teve". E Ezra Pound, diante de quem me curvo, como a maior presença poética dos últimos séculos, desde o Dante, contemplando nosso país da Ibiapaba, onde os homens sabiam cantar à viola, no mesmo tom, o amor e a morte, escrevia: - "Toda a minha obra foi uma tentativa de escrever a epopéia da América. Não o consegui. Ela foi escrita no poema espantoso do poeta do País dos Mourões". Relevai-me a impropriedade e a imodéstia dessas evocações. Mas é que elas não lembram propriamente este pobre cantor das coisas, dos lugares e das pessoas, de nossa terra, mas consagram, isto sim, a mais bela, a mais generosa, a mais sofrida e a mais heróica região deste país - este Ceará ao mesmo tempo primitivo e civilizado, de onde saiu um dia, como um centauro equatorial, meio-terra meio homem, o bárbaro profeta de Canudos que, como ensina Euclides da Cunha, ensinou o Brasil ao Brasil. Talvez seja este o lugar onde o Brasil encontre um dia aquilo a que Max Scheler chamava o posto do homem no cosmos. Pois em nenhuma parte do mundo o ser humano é capaz como aqui, de alcançar a medula do conhecimento das coisas, pelo milagre e pela mágica da intuição - essa intuição que é o começo da poesia e o começo da posse do mundo - como lembra Friedrich Schlegel, sempre repetido por Bergson e por Cassirer e por meu mestre Benedetto Croce. Dizia Ortega y Gasset que a Espanha - Espanha do espanhol típico - e o espanhol típico é Cervantes, o Cervantes de D. Quixote - contempla o mundo do alto de sua própria consciência. Ele é um homem que veio do mito, da Grécia e da Idade Média, quando todo o saber, todo o acesso à realidade, só se fazia possível pela aventura da intuição, pelo conhecimento mágico, pelo milagre da fé. Depois do renascimento, o conhecimento deixou de ser uma aventura, para ser uma verificação da consciência. No coração do continente novo em que vivemos, quando apenas balbuciamos os primeiros textos de uma cultura, na adolescência prístina de seus quinhentos anos, podemos ainda contemplar o mundo do alto das colinas aurorais do tempo mítico. Aqui, parece que tocamos com as mãos o presságio da história. Pois, nenhum outro lugar desta parte do planeta parece anunciar com tantos signos de esperança o aparecimento do homem telúrico, do fundador do Novo Mundo, profetizado pelo mexicano José Vasconcellos, como estas terras mágicas da carnaúba e do caju, do país de Ceará Grande e Mel Redondo. Aqui, nestas solidões equatoriais do Nordeste, somos talvez os novos odisseus, os novos Aquileus, a nova Grécia nas ribeiras do Atlântico sul. Talvez estejamos entrando, neste limiar do milênio, nos vestíbulos de um século de Péricles. Como os gregos daquele tempo, temos a consciência de hver fundado aqui um país, uma pátria, um estado, uma nação. O que fizemos é o resultado de meio milênio de luta contra a natureza mais áspera de um trecho do continente, contra a crueza dos céus inclementes, do chão inclemente, das águas inclementes e dos governos inclementes. Tão inclementes, que brasileiros do sul do país chegaram, mais de uma vez, a propor que, numa diáspora monstruosa, o governo esvaziasse nossa terra, como imprópria para a vida da tribo dos seres humanos. Não sabiam que aqui amadurecemos como os cocos de nossas praias: endurecendo. E duros como pedras, belos, ásperos e intratáveis corno o cactus do poeta, aqui ficai-nos contra as próprias leis da natureza e da sabedoria lógica, irias iluminados pela sabedoria mágica do conhecimento intuitivo e fundador de que só os poetas, os santos e os heróis serão capazes. Aqui ficamos, duros e indecifráveis em nossa teimosia, como a Esfinge de granito nas entradas de Tebas. Aqui ficamos, contra tudo e contra todos, na construção de uma civilização única no mundo, essa civilização construída por nossa própria solidão, tão bem definida no verso de um de nossos poetas, o saudoso Nertan Macedo: - "couro, bando, papaceia, o chão imemorial, o bode, o cavalo, o boi, o sentimento mortal, o homem caça dileta, refletida no punhal". Em nenhum lugar do planeta, em nenhum continente, o homem conseguiu erguer, nos trópicos mais tórridos, uma experiência como esta que os cearenses ergueram, estão erguendo em nossa terra. É de certo, a primeira experiência de civilização bem sucedida, da raça dos homens, num dos brazeiros tropicais do planeta, onde ternos que inventar, ano a ano, a própria água que bebemos. Unamuno dizia que os homens da Península Ibérica - os portugueses e espanhóis - são imprudentes. Que Portugal e Espanha são imprudentes e a imprudência é a maior de suas marcas. Pois, imprudentes somos nós os cearenses, que como o Cavaleiro de Cervantes tivemos que lutar com todos os moinhos de vento da natureza. Foi nossa bendita imprudência, de homens aderidos à terra difícil que nos trouxe até aqui. Em nossas mãos nordestinas foi verdadeiramente fundado o país dos brasileiros. Aqui madrugou a nacionalidade. Aqui foi soldada a unidade do território. Aqui foi estabelecida a língua dos portugueses - nossa língua nacional. Aqui decidimos a opção de ser brasileiros, desde a carta de Martim Soares Moreno, que pedia ao Rei fosse o Ceará incluído como parte do Estado do Brasil. Adotamos a religião, os costumes, a arte de comer, a arte de vestir e a arte de morar ensinadas pelos colonizadores. Colonizadores, sim, mas civilizadores sobretudo. Pois, como ensina Toynbee, e com ele a moderna interpretação da história, a civilização de todos os povos passa pelo processo de colonização. Neste momento, quando nas coxilhas perdidas do sul levantam-se veleidades de separatismo, com bandeiras erguidas por filhos de imigrantes alemães, que aqui chegaram, encontrando um país feito e perfeito - feito por nossas mãos - parece que devemos ser chamados de novo ao pau furado dos bacamartes com que ontem repelimos o retalhamento do território por holandeses e franceses. Injustiçados há séculos pelo poder central, é sobre nossos ombros ralados de nordestinos que repousa a segurança da unidade nacional. Para usar a terminologia platônica lembrada por Garcia Bacca, o Nordeste, especialmente o Ceará, é a katabasís da realidade brasileira, a descida ao "deep country", o país profundo de nossos afetos, de nossa coragem, e de nossa consciência. Senhores Professores: Aqui estamos na aula magna de uma Universidade. É aqui o lugar onde se elabora o pensamento de nossa gente. Aqui somos não só a elite, mas a elite das elites, no sentido etimológico e primeiro da palavra. Contou-me certa vez o saudoso amigo, o poeta Augusto Frederico Schmidt que, num encontro em Lisboa, entre Salazar e Juscelino Kubitschek, o presidente português observou-lhe: - "Senhor presidente, os nossos povos não pensam, não sabem pensar. Temos poetas, romancistas, mas não temos filósofos. E um povo que não pensa não pode sobreviver". É claro que há certo exagero pessimista nas palavras de Salazar, ele mesmo professor universitário. Pois, além dos portugueses que nos precederam, aqui mesmo no Nordeste, o Brasil começou a pensar. A pensar, com Tobias Barreto, na escola alemã do Recife, mas sobretudo no Ceará, quando um pobre rapaz de São Benedito, chamado Raimundo Farias Brito, no alto da serra da Ibiapaba, vivendo em duas então pequenas capitais provincianas, Fortaleza e Belém do Para, operou o milagre de erigir o "'Opus" monumental de um pensamento original, à altura das mais surpreendentes aventuras do pensamento europeu em seu século. É na Universidade que aprendemos a pensar. O aprendizado do pensamento se chama filosofia. Vale a pena lembrar a velha advertência de Sócrates de que os povos só serão felizes, quando forem bem governados, e que só serão bem governados, quando os reis forem filósofos e os filósofos forem reis. Os donos do poder em geral freqüentam mais o pleonasmo que a gramática e são mais dados à redundância que à boa linguagem. Ora, hoje está em moda entre nós a palavra ética. E os donos do poder a empregam, a torto e a direito. Mais a torto que a direito. Pois, governadores de Estado, deputados e senadores proclamam a necessidade de "procedimentos éticos e morais (sic)" e das práticas de uma "ética moral"(slc) na vida pública. É o mesmo que dizer-se um quadrúpede de quatro pés ou um bípede de dois pés. A palavra "ética" vem do grego "ethos", que significa costume, como todo mundo sabe. E a palavra moral, derivada de "mos-moris" do latim, também significa costume, e é apenas a versão, a exata versão da palavra grega. Estamos aqui numa Universidade. A palavra "ética" aparece pela primeira vez na Filosofia, no âmbito da primeira Universidade de Atenas, nos jardins acadêmicos de Sócrates, quatrocentos anos antes de Cristo. O primeiro filósofo a se ocupar da Ética, corno capitulo - e capítulo escatológico da Filosofia - foi Aristóteles em seus três grandes livros sobre a política: a "Ética a Eudemo", a "Ética a Nicômaco" e a "Grande Ética e a Política". Trezentos e tantos anos depois de Sócrates, Cícero, em Roma, cunhou a palavra "moral", hoje de uso corrente em todas as línguas do Ocidente. "Devemos enriquecer nossa língua latina - escrevia ele - chamando moral - de "mos-moris" aquilo que os gregos chamam "ética", de "ethos". Assim a palavra grega "ética" foi substituída por "moral", no latim de Cícero. Essa breve divagação, quase pretenciosamente erudita, tem sua razão de ser aqui e agora. Pois, ainda recentemente o país viveu uma espécie de apocalipse político, com a derrubada de um governo e a transformação da ética em moeda corrente dos diálogos políticos da república. Parece mesmo que se está propondo ao povo brasileiro um novo tipo de homem, em substituição ao animal político de Aristóteles ou ao pobre "homo economicus" dos tempos indigentes, já agora peremptos, do pensamento marxista. O "homo ethicus" é a nova consigna de nossos dias temerários e esperançosos. Sua chegada - ou a esperança dela - nos situa numa hora vestibular e inaugural da história, com todas as suas alvíssaras e todos os seus perigos. Pois, tanto podemos chegar à utopia socrática da "polis" em que os reis são filósofos e os filósofos são reis, como à complicada ingenuidade - se assim se pode dizer - da engenharia conteana da religião da humanidade. Isto é, ao culto de uma axiologia ética, à margem dos valores transcendentais do ser humano e da própria sociedade humana. Os filósofos que trataram da ética - e foram praticamente todos eles - a situam corno a finalidade do saber humano e, pois, da universidade. Ela é a "réussite", o cumprimento da filosofia, da sabedoria. A sabedoria, como queremos todos, é "a coisa" da Universidade. O "ethos", o costume - supostamente o bom costume - é fundado sobre o conhecimento do bom, do belo e do verdadeiro. Isto é a ética em seu alcance final, que é também o alcance final da filosofia, sem o qual não se pode conceber a prática de um comportamento ao mesmo tempo sábio e belo e bom. Heidegger, o reitor maior da filosofia do Ocidente, desde os gregos, convidado a vida inteira para escrever uma ética, nunca realizou o projeto que lhe era pedido. Mas em certa passagem de sua famosa "carta sobre o Humanismo", dirigida e dedicada ao meu saudoso amigo, o filósofo francês Jean Beauffret, ele trata da palavra grega "ethos", encontrada num dos fragmentos heraclíticos. E ao lembrar que "ethos" significa "costume", o costume de viver, sustenta que "ethos" tem a mesma raiz de "olkos" - casa, habitação, estadia. A estadia, a casa, a habitação, como mais tarde em Spinoza, supõe a moradia eterna do ser humano, a eternidade do homem. A ética é, pois a "coisa" da eternidade que carregamos dentro de nós e de nossa história pessoal, como queria Antígona, na tragédia de Sófocles. Como fonte do saber, só a Universidade chega à fundação da sabedoria, à fundação da ética. Esta, senhores professores, é nossa missão. Em nossas mãos está a chave do mundo ético, cujas portas são o próprio pórtico da Universidade. Para concluir, Magnífico Reitor, doutores ilustres da Congregação desta Universidade, o comovido agradecimento do doutor menor que hoje aqui recebe vossa sagração e vossa ordenação. E com ele, minha homenagem comovida à minha terra e à minha gente do Ceará. A esta terra e a esta gente, que guarda, insculpida em bronze, a legenda de sua grandeza heróica, expressa na palavra de Gustavo Barroso: - "enquanto outras regiões do Brasil se orgulham de feitos antigos e riquezas modernas, a glória do Nordeste é como a dos santos e dos mártires, feita de dores e provações". Pois bem: está é a glória maior, a glória dos santos e dos mártires. Por ser temperada de dores e provações, é feita também de esperanças e promissões. E é a única que frutifica e que perdura. Estas palavras foram tudo que consegui tirar da abundância de minha emoção - "ex abundantia cordis" - e da pobreza de meus talentos. Nem me justifico por elas. Justifica-se por mim aquele outro cantador das Ipueiras, Anselmo Vieira, na sextilha de sua viola sertaneja, recolhida por nosso Leonardo Mota: "Pr'eu cantá na sua casa, Meu patrão, me deu licença: Se a cantiga não foi boa, Desculpe Vossa Incelença, Que às vez as coisas não sai Do jeito que a gente pensa". Fortaleza, 25 de maio de 1993 ------------------ ------------------ ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Discurso ao Receber o grau de Doutor Honoris Causa na Universidade Federal do Ceará Meu venerando amigo Austregésilo de Athayde, pernambucano por acidente, mas cearense de sangue e cepa, e até meu parente pelo costado dos Feitosas dos Inhamuns, costuma contar uma anedota exemplarmente nordestina. Chegado de Paris, onde pronunciara um discurso histórico na Assembléia Geral da ONU, sobre a Declaração dos Direitos humanos, de cujo texto fora o redator principal, foi ao Recife, para contar a história à sua mãe. Certo de que o episódio a encheria de orgulho, ao saber do filho aplaudido por todas as nações da terra, na tribuna mais alta do planeta, o que ouviu foi quase um muxoxo de desdém: "É - respondeu-lhe a velha mãe nordestina - mas você nunca discursou no Teatro Santa Isabel". O Teatro Santa Isabel era o palco maior, o símbolo conspícuo, das grandezas e da glória regional de sua honra pernambucana. Falar ali, na tribuna egrégia em que ressoaram as vozes de Joaquim Nabuco de Castro Alves e de Tobias Barreto, as vozes de sua raça e de sua tribo, de sua história e de suas raízes, isto sim, é que era a coroa de louros e a taça de ouro de uma carreira olímpica. O laurel imarcessível com que o "vir gloriosus" podia destruir o provérbio pessimista de que ninguém é profeta em sua terra. Hoje, que me chamastes às galas da Universidade Federal de minha terra, sobe-me ao coração um orgulho novo. Pois, ao contrário do pernambucano ilustre, que nunca chegou ao palco do Santa Isabel, o menino assombrado que partiu, num ano já remoto, de seus pés-de-serra da Ibiapaba, e atravessou os verdes mares bravios para as aventuras de achamento e perdição do mundo, está recebendo de vós uma dádiva surpreendente - a de entrever, no fundo deste salão, a sombra de sua velha mãe, boa e brava professora primária em terras de Ipueiras, Cratéus, Nova-Russas e da antiga Campo Grande, murmurando comovida: - O menino está falando aos doutores maiores de minha terra, na tribuna mais alta do saber de nosso pais do Ceará Grande. É para essa sombra morta no passado, agora viva na memória do menino antigo, que se voltam os olhos enternecidos e o coração, de repente tomado aos tempos aurorais da infância. Desse velho coração sofrido, que sempre bateu por tantas peripécias, por tantos céus, por tantas terras, por tantos mares, mas que sempre guardou e guardará, enquanto latejar no peito, sua batida mais forte, pelas coisas, os lugares e as pessoas do chão de onde brotamos. Do chão de onde nunca arranquei a raiz do próprio ser. Olhai bem para mim, doutores e estudantes que aqui estais. Olhai bem para mim, Pois, aqui estou corno o avatar vivo, o abantesma de tempos e lugares remotos. Que caminhos pisaram meus pés andarilhos e inquietos até chegar a esta noite? O erudito seiscentista Johanhes Amós Kotnensky, conhecido na história da literatura por seu nome latino, Comenius, hussita herético, nascido na Morávia, que ensinou em Praga e em Londres, autor de alguns monumentos da erudição européia, corno o "Amphlteatrum Universitatis Rerum" e a "Didactíca Magna", sustenta que "a natureza produz tudo a partir da raiz" e ensina: - na árvore, tudo o que virá a ser a madeira, a tasca, as folhas, as flores e os frutos, não provém senão da raiz". E conclui, dizendo que o ser do homem não se mantém e não floresce, se não estiver permanentemente plantado em suas raízes. Venho de longe, de muito longe, senhores. Se depois de uma saga pessoal dramática, de astres e desastres, aqui continuo de pé, é porque a dura casca deste peregrino de si mesmo, apesar de todas as peregrinações, nunca deixou de estar aderida ao tronco que se ergueu das raízes, mergulhadas no fundo da terra. Venho, assim, de muito longe. Cearense há quatrocentos anos, estou para cumprir quinhentos anos de nordeste. Fui amassado no barro das Ipueiras, nos vales e sertões do pé-da-serra da Ibiapaba, terra de barro bom pra homem. Nunca me saíram da memória da retina as palmeiras e os chapadões da serra azul, por onde os jesuítas temerários escreveram com o próprio sangue o capítulo inaugural da primeira navegação mediterrânea do Brasil, singrando o sertão e a cordilheira, entre o Ceará e o Piauí. Guardo nos ouvidos da memória o estrondo dos bacamartes com que meus antepassados, Mellos e Mourões, se engolfaram na guerra fratricida, sustentada pela bravura do Coronel José de Barros Mello, oito vezes meu tetravô, chamado "O Cascavel", ao enfrentar a fúria vingadora de seu cunhado e primo-irmão, também meu tio-tetravô, o indomável Alexandre Mourão, que levou sua guerra até o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco, com a galhardia romântica de um capitão da Renascença. Venho de longe. Da salva das escopetas, das lazarinas de pederneira e cano longo e dos rifles papo-amarelo com que as rudes baronias rurais de nossa terra fundaram este país. Venho da grandeza trágica de meu endecavô, o Coronel Manuel Martins Chaves, que sofreu a felonia da traição do infame Marquês de Aracati. Venho da ponta da espada de meu quarto tio, Antônio Ferreira de Sampaio, sobrinho do General Sampaio, meu tio-bisavô, que com ela riscou o peito insolente do governador Oyenhausen na casa grande entre as Ipueiras e o Campo Grande. Venho de longe. Venho do sangue de meu tio-avô, Padre Inácio Mello, seqüestrado em Cratéus, castrado e assassinado no caminho da Paraíba por oito sicários. Dez dias depois, os oito eram com Cristo, segundo as ordens e as armas de outro tio-avô, o Padre Doutor Luiz Lopes Teixeira, e de meu bisavô, o galante Coronel Alexandre de Barros Mello. Venho de longe, de muito longe. Venho das balas do sargentão Jacó Niemeyer que vararam o peito do meu oitavo tio, o Padre Gonçalo Mello, chamado o Mororó, fusilado em Fortaleza, no Campo da Pólvora, na revolução de 1824. Venho da batina ensangüentada do Padre Joaquim Mourão, ainda hoje guardada num baú de couro reúno por meu primo Raimundo Mourão, em seu engenho da Serra dos Cocos, arcabuzado nas rixas políticas do Maranhão, Venho da lua da sela do alazão do meu segundo tio, o Coronel Quintino Benjamim Lopes, que ali me aconchegava junto a seu bacamarte vigilante e às pistolas de coronha de madrepérola, no caminho do engenho de Águas Belas. Venho do tempo em que os fundadores do mundo, no vale, na serra e no sertão, nominavam as coisas, os lugares e as pessoas, como o fizeram os primeiros protagonistas da cosmogonia nos tempos aurorais, de Adão a Deucalião. Pois, até os bacamartes dos capitães de aventura recebiam nome e identidade, como os de Alexandre Mourão que se chamavam, entre outros, "Luar da Serra" e "Galo de Campina". Venho de mais longe ainda, pois as raízes familiares em que me planto mergulham naquela touceira de soldados, marinheiros e pastores de ovelhas, partidos de Macau e de Lisboa, como Duarte Coelho e Pero Lopes de Souza. De seus bagos venho. Venho do tutano de nossa raça, cearense e nordestina, onde todos somos fidalgos e todos somos plebeus. Assim como o historiador alemão sustenta que toda a população de seu país descende de Carlos Magno, aqui, todas as nossas genealogias, douradas ou rústicas, mergulham na velha raiz dos Albuquerque e dos Cavalcanti. Descendemos todos daquele proteico e generoso Jerônimo de Albuquerque, a quem a lenda atribui a façanha de ter sido pai de duzentos filhos, e que foi o fundador maior do país do Nordeste. Venho do tropel das armas de meu sexto-avô, o Capitão-mor Vítor de Barros Galvão, que atravessou a Ibiapaba para, instalar-se como Governador do Piauí, na velha capital de Oeiras. Venho da bengala de estoque de meu tio-avô Padre Feitosa, que com ela chuçou os peitos do capitão, na porta da cadeia de Cratéus, onde 1.500 Mellos e Mourões, das Ipueiras, da Serra dos Cocos, da Canabrava e do Tamboril, atropados por meu tio-avô, o Coronel Alexandre Mourão Quinto, - o quinto de seu nome em sua raça - ao lado do meu avô, Capitão José Ribeiro Mello, de meu bisavô, o Major Chiquinho, e de nosso primo, Major Borete Mourão, arrancaram da prisão nosso primo Coronel Correia Lima, chefe político da região. Venho da rosácea amarela da Casa Grande do Coronel Domingos Mourão Filho, na praça de Pedro II, com sua fachada ainda hoje tauxeada pelas cicatrizes do tiroteio de um governo arbitrário que enfrentou e derrubou, levando seus rifles liberais até Teresina. Venho destas raízes, que são as próprias raízes do Ceará. O menino de Ipueiras não queria despegar-se dessas raízes, nem fisicamente. Por isso, naquele tempo, comecei a ouvir com certo terror, os projetos de minha mãe, que, diante das dificuldades da instrução em nossa região, começou a conspirar para levar-me para o Rio, onde poderia estudar, aos cuidados de uns tios generosos. Não havia, em nossas redondezas, sequer um ginásio para a formação de escolares. O saudoso professor Solon Farias, em Cratéus, foi o primeiro homem a me dar a impressão de uma pessoa prodigiosamente inteligente e cheia de saber. Por onde andará, se é que ainda está vivo? Meu tio Tabajara Mello cedeu-lhe ou arrendou-lhe uma sala, onde montou, com seu irmão Antônio Farias, uma aula para o que então se chamava em Cratéus, os meninos e rapazes adiantados. Foi o primeiro a seduzir minha mãe com a idéia de levar-me para o Rio. E um dia, reunidos na velha casa de meu avó, nosso primo Chagas Barreto, dos Mello Barreto, de Sobral, que era o que hoje se chamaria um industrial progressista - tinha uma fábrica de sapatos e instalara o primeiro elevador da cidade - e ainda o nosso vizinho e meu padrinho de fogueira, Hugo Catunda, que me dava livros e revistas para ler, mais nosso primo Ignácio de Mello Falcão, vereador perpétuo, orador contumaz e redator dos manifestos políticos do município, decidiram com minha mãe: - "Você tem de levar este menino para estudar no sul". E o velho e poderoso Padre Feitosa, também nosso primo, que me dera de presente um velocípede francês, o único velocípede que circulava nas Ipueiras, e creio que era na época Senador estadual, virou-se para minha mãe e disse: - "Vou dar-lhe de presente a única casa que possuo em Ipueiras. Passo a escritura amanhã no cartório do compadre Né Guilhermino, mas você vai levar este menino para o sul". O Chagas Barreto exaltou-se: "Leve o menino. Este menino vai ser um profeta, e ninguém é profeta em sua terra". Com sua contumácia oratória, Ignácio de Mello Falcão, o orador da terra, começou a fazer profecias exaltadas sobre o gênio do probre menino de Ipueiras. Minha sorte estava selada. Mas as raízes do menino estavam profundamente presas ao chão de seus avós. Preparou-se tudo: o enxoval, a viagem, as passagens no trem de ferro até Sobral, primeira etapa do êxodo cruel. Mas no dia em que se marcara a partida, os parentes prontos para o bota-fora na casa amarela da estação de Ipueiras, o menino escapuliu pelo quintal, contemplou a grande cajazeira, os pés de ata, as goiabeiras, os pés de mulungu, de trapiá, de joá, da casa em que nascera, e desapareceu por uma porteira que dava para as barrancas do rio Jatobá. Correu pela beira do rio, com um companheiro solidário, e escondeu-se numa profunda moita de mofumbo, entre gitiranas em flor. Até hoje, guardo a paixão pelas gitiranas, e mais tarde aprendi de cor os versos antológicos das gitiranas, de nosso poeta Otacílio Colares. Adquiri o costume de recitá-los nas passagens de minhas estrepolias romeiras pelo oco do inundo, como resgate e penitência pela advertência sábia de minha avó, Dona Úrsula, a todos os que pretendiam emigrar em nossa família. - "boa romaria faz quem em sua casa fica em paz", Recitei-os à beira do Arno, nas manhãs florentinas da Toscana. Repeti seus decassílabos sonoros na travessia dos Alpes e na travessia da Cordilheira dos Andes. Habituei-me a declamá-los entre os gerânios chilenos de Viña del Mar, diante do mar Pacífico, em La Serena, nos jardins de Tegucigalpa, de Porto Rico, de Caracas, de Bogotá, de Lima, do México, da Guatemala e à beira do Lago de Granada da Nicarágua, onde morava um poeta, entre as mangueiras das ilhas lacustres. Pude repeti-los às águas do Tâmisa, do Sena, do Pó, do Tíbre, ao pé do Castelo de Santo Ângelo, e às ondas corredeiras do Ródano, perto da estátua rebelde de Calvino. Fiz ecoar a louvação das gitiranas pelos rios sagrados de Hoelderlin, na Alemanha, no cemitério judeu de Praga, diante do túmulo de Kafka corno diante do túmulo de Hoelderlin, onde se sentou Efrain, e da janela abandonada da casa de Rilke. Declamei-os na selva paraguaia, por onde andei foragido e nas barrancas do rio da Prata, em Buenos Aires, chão de Gofredo Iommi e de Raul Young. Clamei-os, do alto de Badaling, muralha da China, e no Rio Amarelo de Shangai e nas estepes da Mongólia interior, entre camelos e pastores espantados. Murmurei-os no golfo das Pérolas, entre Hong Kong e Macau. Ensinei-os aos poetas da Belle Province, no vale laurenciano do Québec e Osvaldo Peralva me gravou e filmou enquanto eu declamava em voz alta as gitiranas aos japoneses atônitos, diante do Buda de Kamakura, como sua doce mulher japonesa, a bela Yuko, o faria também na noite de Tóquio, entre os vinhos de sua casa de Minato-Ku. Repeti suas estrofes cearenses à varanda dourada da Deusa viva, em Katmandu, aos muçulmanos surpresos no portal da mesquita azul de Istambul, na travessia do Bósforo, em Missolonghi, onde morreu de febres terçãs o poeta Byron, nos templos de Huehot e na biblioteca de pedra do Vietnam. Quebrei com seus versos o silêncio augusto do templo de Apolo e da gruta da Sibila em Delfos, e um soldado grego me prendeu, quando, com o poeta caldeu Christos Clairis, escandi as gitiranas no espaço sagrado do Cabo Sumion, no templo de Poseidon. Um gendarme francês queria levar-me preso, porque eu interrompia o trânsito, cantando a flor silvestre das Ipueiras no Arco do Triunfo. E assim em toda parte, no país africano do Magreb, no cabaret de Casablanca e na Medina árabe de Fez, nas praias do Senegal, nas barrancas do Vístula e do Volga, nas pontes do Moskwa em Moscou, do Danúbio, em Belgrado, e do Alster de Hamburgo, do Tejo e do Gaudalquivir, entre as tulipas da Holanda e do Luxemburgo, na praça dourada de Bruxelas, à beira do Ganges sagrado, na índia, no vale do Líbano e nos velhos templos ensangüentados pela fúria comunista no reino do Camboja, na desolação do Laos, ao pé do Tibet, onde as tecedeiras de tapetes pararam assustadas, sem entender, na China, na Indochina, na Conchinchina, de Hanoi a Saigon, nas Coréias do Norte e do Sul, de Pyongiang e ao paralelo de Pan Mun Jon. Cantei as gitiranas das Ipueiras em Jerusalém, em Belém do Para e em Belém de Judá, no lago de Tiberíades, no Mar Morto, na feira de Cafamaum e na cripta de Nazaré, onde o Arcanjo Gabriel anunciou à Virgem o nascimento de Jesus. Cantei as gitiranas de minha fuga infantil contemplando os rios de Babilônia, nas terras que foram a Assíria e repeti as estrofes de minha terra junto aos jardins povoados de pavões azuis no memorial de amor do Taj Mahal, como o fizera entre as colunas do Partenon, do Pentélikon, do Olimpo e do Parnaso, nas fronteiras da Pushta húngara, na Croácia e em Sarajevo, na Dalmácia, na Moldávia, na glorieta do Hofburg e nos bosques de Viena. E se mais mundo houvera, lá chegara. Alegro-me que os versos sejam também uma lembrança de Otacílio. Mas eles são na verdade uma fidelidade ao país das Ipueiras, no dia em que, por amor às minhas raízes, fiquei protegido entre as flores de mel do mofumbo silvestre e as flores da gitirana, até ouvir o apito do trem que partia. Perdi a viagem, para desespero de minha mãe. Mas a decisão de minha diáspora era implacável. Marcado trem para a semana seguinte, as saídas do quintal estavam rigorosamente vigiadas, para impediar a nova fuga. Mas o menino não queria deixar seu chão. Havia lido, já não me lembra se no "Lunário Perpétuo", famoso almanaque português, que resumia a cultura de quase todas as nossas casas nordestinas, ou nalguma revista de meu padrinho Hugo Catunda, que, na Idade Média, os perseguidos e os condenados que se refugiavam no interior de uma igreja não podiam ser capturados. Duas ou três horas antes de irmos para a estação, de repente, cheguei à porta da rua, e numa carreira desabalada, alcancei a igreja, onde me considerei a salvo. Não conseguiram deter-me. Os perseguidores pararam à porta da matriz. Foi então, que meu avô, a presença mais afetuosa, mais sensível, mais compassiva e mais querida da minha infância, e ainda hoje a mais doce das lembranças de meu coração, entrou silenciosamente na igreja. Era um gigante louro, de olhos azuis, a fala viril, mas cheia de ternura. Pôs sobre minha cabeça a grande mão vigorosa e suave. Levantou-me, encostou no seu meu pequeno rosto moreno, um soluço profundo saiu-lhe do peito largo, e senti o sal de suas lágrimas. Segurando-me a cabeça, beijou repetidamente minhas bochechas banhadas de lágrimas, num gesto de carinho até hoje muito raro nos homens de nossa região, e pediu-me que o acompanhasse. Que confiasse em sua palavra. Que eu podia ir, porque voltaria com certeza, pois ele mesmo iria buscar-me. Foi assim que parti. Ainda hoje, a lembrança mais pungente de minha vida, é a de seus olhos azuis cheios de lágrimas, e do grande lenço quadriculado que usava, acenando para a janela do trem que partia apitando longamente, um apito de varar a alma, no rumo do Ipu. Depois, foi o mundo. O grande e estranho mundo. O Seminário holandês nas montanhas de Minas. Cresci e prosperei à sombra dos profetas barrocos do Aleijadinho, em Congonhas do Campo. Cresci pouco e prosperei menos. Depois, o Convento da Glória, a tomada de hábito em Juiz de Fora, onde o jovem clérigo, cumpridos os fervorosos estudos do latim e do grego, da Retórica e da Poesia, da Música, das Línguas vivas e mortas, das ciências e das artes - um verdadeiro curriculum de trivium e quatrivium, como se usava nos mosteiros medievais - era iniciado no conhecimento, na teoria e na prática da Ascética. Em seguida, deixou o menino a sombra do claustro, a serena beleza de suas vestes talares de clérigo de Santo Afonso, a celestial harmonia do canto gregoriano e o odor dos incensos sagrados nos turíbulos rituais. Caiu, então, no outro mundo, nesse triângulo das Bermudas em que desaparecemos, no abismo de cada dia, no trinômio de perigo e perdição e angústia, onde estão os aguilhões do quotidiano, a que os doutores da fé chamam de "os três inimigos do homem: - o mundo, a carne e o diabo". Entre esses três inimigos, o menino passou a viver perigosamente, por vocação e por aprendizado. Nietzsche, um dos mestres de sua adolescência, e ainda hoje um companheiro das horas temerárias do pensamento, acendeu-lhe a paixão de viver perigosamente - única forma pela qual o homem pode escapar às dimensões menores, que levam à vala comum. Conheceu e terçou armas - todas as armas - com o Senhor Diabo, com o Senhor Mundo e com a Senhora Carne. Conheceu a política, com suas glórias efêmeras, sua ambição de construir, a mais de sua história pessoal, a história da sociedade. Conheceu o poder e a queda. Subiu à tribuna dos parlamentos e freqüentou os palácios das salas de passos perdidos do poder. Venho de longe, de muito longe. Venho do subterrâneo das conspirações e dos golpes armados contra a tirania. Venho do fundo dos cárceres de duas ditaduras e comi, como o Dante, o sal do exílio, depois de fugir rocambolescamente aos esbirros da repressão, atravessando as fronteiras temerárias do Paraguai, para viver durante alguns anos entre a cordilheira e o mar, no doce e querido país do Chile. Chegou-me, então, a tempo, a lição de Camus, que me visitava, com o grande irmão negro, Abdias Nascimento, na Penitenciária do Rio de Janeiro. "Os outros - dizia o grande romancista perplexo - façam a política e a história. Nós, os artistas, poetas, não temos que fazer a história. Nossa tarefa e nosso dever, é sofrer a história." Sou o filho de uma geração trágica. A mais trágica deste país. olhai bem para mim: no mesmo peito que recebeu as medalhas e as contendas de chefes de Estado estrangeiros, recebi o furor das agressões nas salas de tortura do regime ditatorial por duas vezes instalado neste pais, em minha geração. Vi jovens e velhos torturados até a morte nos cárceres infames, seus corpos arrastados pelos corredores dos quartéis como uma posta de sangue. Na verdade, parece que vi tudo e o contrário de tudo ao longo dos anos. Mas as raízes do menino de Ipueiras permaneceram intatas, sempre sustentadas por uma âncora infalível: - a âncora da fé, guardada no forno do ser e incorporada à alma rios fervores do convento redentorista. Essa âncora da fé foi a âncora primeira, forjada no mundo mágico e intuitivo em que o regaço ardente da mãe, marcada pelo fogo cristão da mística, transmitiu ao menino a certeza de poder morrer cada dia e de cada dia nascer de novo, para que cada dia fosse corno o primeiro dia, como se o coração acabasse de sair das mãos de Deus. E assim permanecesse, ainda e sempre quente, do calor da mão do Creador que o pesava e media e modelava. A outra foi a âncora da Musa - a vocação da poesia, da beleza, a que sustenta o barco bêbado do poeta, isto é, do ser humano - uma vez que cantar é ser, como descobre Rilke - ria incessante navegação do artista para sua própria invenção da eternidade. Se vinha dos dias da infância a presença do sortilégio da poesia, o poeta, na verdade, recebeu seu sacramento de confirmação - o crisma - ao encontrar numa noite de bar, quatro outras almas gêmeas. Pois, éramos seis. Fomos armados cavaleiros quando aquele grupo de adolescentes, numa praça de Buenos Aires, resolveu queimar em praça pública tudo quanto até então escrevera, num pacto que se chamou "Pacto del Victoria", do nome do local em que nascera. Todo o compromisso do pacto foi escrito numa única linha: - "Ou Dante ou nada" . Por isso, queimaram-se todos os versos da "juvenilia". Não teríamos o direito de escrever o já escrito, de dizer o já dito. A rompante legenda adolescente nos sagrou cavaleiros da Senhora Poesia, da Senhora Musa. Passamos a chamar-nos por um nome secreto. Éramos a "Santa Hermandad de la Orquídea". A guilda órfica navegou todos os continentes e tentou lavrar todas as glebas do saber e do fazer poético. Éramos seis: - Efraim Tomás Bo, Godofredo Iommi, Juan Raul Young, argentinos, e brasileiros. Abdias Nascimento, Napoleão Lopes Filho e este vosso cantor. Dois de nós já partiram para a eternidade. Em nome da fidelidade ao absoluto, jurada no "Pacto del Victoria", Abdias Nascimento consagrou todos os seus alentos na vida, corno pintor, corno teatrólogo, como ensaista para a ressurreição de sua raça negra, instrumentando sua luta na ação política e na cátedra universitária. É doutor e Senador da República, mas tudo em nome da fidelidade àquela busca do absoluto que nos uniu na Santa Hermandad de la Orquídea. Godofredo Iommi é hoje o poeta maior da língua espanhola neste século. Raul Young abriu caminhos novos na poesia, no teatro e no cinema da Argentina. Napoleão pronunciou um voto religioso pelo qual se fez Cavaleiro da Virgem, que já o levou para a eternidade, depois de dele ouvir na terra a mais bela poesia religiosa de nossa língua. Efrain, que sabia tudo e o contrário de tudo, depois de uma vida rilkeana e às vezes díonisíaca, está já agora na mão de Deus, na Sua mão direita, como queria o poeta. Parte de sua obra foi publicada por nós, na Universidade Católica do Chile. Também por esse caminho, venho de longe, de muito longe, da adolescência da Santa Hermandad de la Orquídea. Conheci para sempre a castidade e o amor das Musas, a que sou fiel, "ego scriptor" - como se qualificava Ezra Pound, diante dos juizes ignorantes e dos carcereiros broncos do exército de seu país. Aqui estou também eu: "ego poeta". Pois, poeta sum". Eu sou o poeta do país dos Mourões, e como na frase humilde e soberba do testamento de Keats - "I think I shall be among the english poets, after my deathl" - também creio que estarei entre os poetas de meu país, depois de minha morte. Perdoai-me essas divagações bibliográficas, quando o que pareceria adequado, nesta aula de claustro pleno, seria uma confissão de fé no pensamento e no espírito em que se fundou o trabalho de um homem, que é apenas um poeta e não pretende ser senão um poeta, em cada palavra que se aventurou a escrever. A política, as revoluções e as aventuras que se hospedaram em meus dias e minhas noites, são apenas a sombra da asa da poesia, da Musa, a amante exigente e cruel, que exige tudo, o sangue e a vida de seus amantes. Eu comecei a conhecê-la nas ribeiras de minha terra, no alpendre dos engenhos da serra e da Macambira, nas feiras da Canabrava e das Ipueiras. Ali, nas rabequinhas de pinho e nas violas sertanejas, aprendi a rima e o ritmo, e aos sete anos era capaz de escandir as redondilhas, durante horas, sem quebrar uma sílaba. Um dia, no Congresso Internacional de Poesia, reunido em Londres sob os auspícios da Cátedra de Poesia da Universidade de Oxford, do Instituto de Artes da Grã Bretanha e do Suplemento Literário do "Times", o velho poeta e mestre da Poética, Robert Graves, e meu querido amigo, o então jovem poeta Jonathan Boulting, perguntaram quais eram os poetas a quem eu mais devia, quais as influências maiores do meu trato com a palavra poética, as influências que me levaram à aventura épica da trilogia dos "Peãs", com o "País dos Mourões", a "Peripécia de Gerardo" e o "Rastro de Apolo". Comecei a alinhar os nomes de minha devoção maior: o Dante, o Homero, Hoelderlin e Rilke, Baudelalre e Rimbaud, Gongora e Mallarmé, De repente estanquei, para dizer: - "o poeta que me despertou para a Musa chama-se Anselmo Vieira. Nenhum dos cinqüenta poetas de todo o mundo ali presentes sabia de quem se tratava. Anselmo Vieira era um caboclo das Ipueiras. Dele ouvi estremecendo a quadra épica que meu avô lhe pedira, para cantar sua família e seus parentes numa festa de São Gonçalo da Serra dos Cocos: "Antes do céu ter estrelas, E das nuvens ter trovões, Os Mellos já eram Mellos E os Mourões eram Mourões. Anos depois, descobria a bravata semelhante de uma famosa quadra espanhola sobre os Quiroz e os Velascos. Mas o tom épico da bravata de Anselmo sobre o clan familiar, foi talvez o primeiro germe da epopéia que tentei construir em torno de minha terra e de minha gente do Ceará Grande. Toda a lírica e toda a épica de que fui capaz, se algum mérito tiver, será o da fidelidade às raízes populares de meu país de serranos e sertanejos, onde todas as mulheres são belas e todos os homens são valentes. Toda poesia é cosmogônica. Entre as trezentas maneiras de fazer versos referidas por Elliot, e as trezentas definições de poesia alinhadas pelos culturalistas vadios, um único verso de Hoelderlin nos situa diante da mera face da Musa: - "Was bleibet aber, stiften die Dichter". Tudo o que permanece, a única coisa que permanece é aquilo que é fundado pelos poetas. Talvez por isso, por ter tentado fundar aquele rude país dos Mourões, com o cheiro da pólvora de seus heróis, ao clarão da lâmina das parnaíbas pontudas e ao trom dos mosquetões, é que O País dos Mourões mereceu a exclamação comovida de Carlos Drummond de Andrade: "- Esta poesia - escreveu ele - foi tudo quanto sempre desejei escrever na vida, e nunca tive força. Gerardo Mello Mourão teve". E Ezra Pound, diante de quem me curvo, como a maior presença poética dos últimos séculos, desde o Dante, contemplando nosso país da Ibiapaba, onde os homens sabiam cantar à viola, no mesmo tom, o amor e a morte, escrevia: - "Toda a minha obra foi uma tentativa de escrever a epopéia da América. Não o consegui. Ela foi escrita no poema espantoso do poeta do País dos Mourões". Relevai-me a impropriedade e a imodéstia dessas evocações. Mas é que elas não lembram propriamente este pobre cantor das coisas, dos lugares e das pessoas, de nossa terra, mas consagram, isto sim, a mais bela, a mais generosa, a mais sofrida e a mais heróica região deste país - este Ceará ao mesmo tempo primitivo e civilizado, de onde saiu um dia, como um centauro equatorial, meio-terra meio homem, o bárbaro profeta de Canudos que, como ensina Euclides da Cunha, ensinou o Brasil ao Brasil. Talvez seja este o lugar onde o Brasil encontre um dia aquilo a que Max Scheler chamava o posto do homem no cosmos. Pois em nenhuma parte do mundo o ser humano é capaz como aqui, de alcançar a medula do conhecimento das coisas, pelo milagre e pela mágica da intuição - essa intuição que é o começo da poesia e o começo da posse do mundo - como lembra Friedrich Schlegel, sempre repetido por Bergson e por Cassirer e por meu mestre Benedetto Croce. Dizia Ortega y Gasset que a Espanha - Espanha do espanhol típico - e o espanhol típico é Cervantes, o Cervantes de D. Quixote - contempla o mundo do alto de sua própria consciência. Ele é um homem que veio do mito, da Grécia e da Idade Média, quando todo o saber, todo o acesso à realidade, só se fazia possível pela aventura da intuição, pelo conhecimento mágico, pelo milagre da fé. Depois do renascimento, o conhecimento deixou de ser uma aventura, para ser uma verificação da consciência. No coração do continente novo em que vivemos, quando apenas balbuciamos os primeiros textos de uma cultura, na adolescência prístina de seus quinhentos anos, podemos ainda contemplar o mundo do alto das colinas aurorais do tempo mítico. Aqui, parece que tocamos com as mãos o presságio da história. Pois, nenhum outro lugar desta parte do planeta parece anunciar com tantos signos de esperança o aparecimento do homem telúrico, do fundador do Novo Mundo, profetizado pelo mexicano José Vasconcellos, como estas terras mágicas da carnaúba e do caju, do país de Ceará Grande e Mel Redondo. Aqui, nestas solidões equatoriais do Nordeste, somos talvez os novos odisseus, os novos Aquileus, a nova Grécia nas ribeiras do Atlântico sul. Talvez estejamos entrando, neste limiar do milênio, nos vestíbulos de um século de Péricles. Como os gregos daquele tempo, temos a consciência de hver fundado aqui um país, uma pátria, um estado, uma nação. O que fizemos é o resultado de meio milênio de luta contra a natureza mais áspera de um trecho do continente, contra a crueza dos céus inclementes, do chão inclemente, das águas inclementes e dos governos inclementes. Tão inclementes, que brasileiros do sul do país chegaram, mais de uma vez, a propor que, numa diáspora monstruosa, o governo esvaziasse nossa terra, como imprópria para a vida da tribo dos seres humanos. Não sabiam que aqui amadurecemos como os cocos de nossas praias: endurecendo. E duros como pedras, belos, ásperos e intratáveis corno o cactus do poeta, aqui ficai-nos contra as próprias leis da natureza e da sabedoria lógica, irias iluminados pela sabedoria mágica do conhecimento intuitivo e fundador de que só os poetas, os santos e os heróis serão capazes. Aqui ficamos, duros e indecifráveis em nossa teimosia, como a Esfinge de granito nas entradas de Tebas. Aqui ficamos, contra tudo e contra todos, na construção de uma civilização única no mundo, essa civilização construída por nossa própria solidão, tão bem definida no verso de um de nossos poetas, o saudoso Nertan Macedo: - "couro, bando, papaceia, o chão imemorial, o bode, o cavalo, o boi, o sentimento mortal, o homem caça dileta, refletida no punhal". Em nenhum lugar do planeta, em nenhum continente, o homem conseguiu erguer, nos trópicos mais tórridos, uma experiência como esta que os cearenses ergueram, estão erguendo em nossa terra. É de certo, a primeira experiência de civilização bem sucedida, da raça dos homens, num dos brazeiros tropicais do planeta, onde ternos que inventar, ano a ano, a própria água que bebemos. Unamuno dizia que os homens da Península Ibérica - os portugueses e espanhóis - são imprudentes. Que Portugal e Espanha são imprudentes e a imprudência é a maior de suas marcas. Pois, imprudentes somos nós os cearenses, que como o Cavaleiro de Cervantes tivemos que lutar com todos os moinhos de vento da natureza. Foi nossa bendita imprudência, de homens aderidos à terra difícil que nos trouxe até aqui. Em nossas mãos nordestinas foi verdadeiramente fundado o país dos brasileiros. Aqui madrugou a nacionalidade. Aqui foi soldada a unidade do território. Aqui foi estabelecida a língua dos portugueses - nossa língua nacional. Aqui decidimos a opção de ser brasileiros, desde a carta de Martim Soares Moreno, que pedia ao Rei fosse o Ceará incluído como parte do Estado do Brasil. Adotamos a religião, os costumes, a arte de comer, a arte de vestir e a arte de morar ensinadas pelos colonizadores. Colonizadores, sim, mas civilizadores sobretudo. Pois, como ensina Toynbee, e com ele a moderna interpretação da história, a civilização de todos os povos passa pelo processo de colonização. Neste momento, quando nas coxilhas perdidas do sul levantam-se veleidades de separatismo, com bandeiras erguidas por filhos de imigrantes alemães, que aqui chegaram, encontrando um país feito e perfeito - feito por nossas mãos - parece que devemos ser chamados de novo ao pau furado dos bacamartes com que ontem repelimos o retalhamento do território por holandeses e franceses. Injustiçados há séculos pelo poder central, é sobre nossos ombros ralados de nordestinos que repousa a segurança da unidade nacional. Para usar a terminologia platônica lembrada por Garcia Bacca, o Nordeste, especialmente o Ceará, é a katabasís da realidade brasileira, a descida ao "deep country", o país profundo de nossos afetos, de nossa coragem, e de nossa consciência. Senhores Professores: Aqui estamos na aula magna de uma Universidade. É aqui o lugar onde se elabora o pensamento de nossa gente. Aqui somos não só a elite, mas a elite das elites, no sentido etimológico e primeiro da palavra. Contou-me certa vez o saudoso amigo, o poeta Augusto Frederico Schmidt que, num encontro em Lisboa, entre Salazar e Juscelino Kubitschek, o presidente português observou-lhe: - "Senhor presidente, os nossos povos não pensam, não sabem pensar. Temos poetas, romancistas, mas não temos filósofos. E um povo que não pensa não pode sobreviver". É claro que há certo exagero pessimista nas palavras de Salazar, ele mesmo professor universitário. Pois, além dos portugueses que nos precederam, aqui mesmo no Nordeste, o Brasil começou a pensar. A pensar, com Tobias Barreto, na escola alemã do Recife, mas sobretudo no Ceará, quando um pobre rapaz de São Benedito, chamado Raimundo Farias Brito, no alto da serra da Ibiapaba, vivendo em duas então pequenas capitais provincianas, Fortaleza e Belém do Para, operou o milagre de erigir o "'Opus" monumental de um pensamento original, à altura das mais surpreendentes aventuras do pensamento europeu em seu século. É na Universidade que aprendemos a pensar. O aprendizado do pensamento se chama filosofia. Vale a pena lembrar a velha advertência de Sócrates de que os povos só serão felizes, quando forem bem governados, e que só serão bem governados, quando os reis forem filósofos e os filósofos forem reis. Os donos do poder em geral freqüentam mais o pleonasmo que a gramática e são mais dados à redundância que à boa linguagem. Ora, hoje está em moda entre nós a palavra ética. E os donos do poder a empregam, a torto e a direito. Mais a torto que a direito. Pois, governadores de Estado, deputados e senadores proclamam a necessidade de "procedimentos éticos e morais (sic)" e das práticas de uma "ética moral"(slc) na vida pública. É o mesmo que dizer-se um quadrúpede de quatro pés ou um bípede de dois pés. A palavra "ética" vem do grego "ethos", que significa costume, como todo mundo sabe. E a palavra moral, derivada de "mos-moris" do latim, também significa costume, e é apenas a versão, a exata versão da palavra grega. Estamos aqui numa Universidade. A palavra "ética" aparece pela primeira vez na Filosofia, no âmbito da primeira Universidade de Atenas, nos jardins acadêmicos de Sócrates, quatrocentos anos antes de Cristo. O primeiro filósofo a se ocupar da Ética, corno capitulo - e capítulo escatológico da Filosofia - foi Aristóteles em seus três grandes livros sobre a política: a "Ética a Eudemo", a "Ética a Nicômaco" e a "Grande Ética e a Política". Trezentos e tantos anos depois de Sócrates, Cícero, em Roma, cunhou a palavra "moral", hoje de uso corrente em todas as línguas do Ocidente. "Devemos enriquecer nossa língua latina - escrevia ele - chamando moral - de "mos-moris" aquilo que os gregos chamam "ética", de "ethos". Assim a palavra grega "ética" foi substituída por "moral", no latim de Cícero. Essa breve divagação, quase pretenciosamente erudita, tem sua razão de ser aqui e agora. Pois, ainda recentemente o país viveu uma espécie de apocalipse político, com a derrubada de um governo e a transformação da ética em moeda corrente dos diálogos políticos da república. Parece mesmo que se está propondo ao povo brasileiro um novo tipo de homem, em substituição ao animal político de Aristóteles ou ao pobre "homo economicus" dos tempos indigentes, já agora peremptos, do pensamento marxista. O "homo ethicus" é a nova consigna de nossos dias temerários e esperançosos. Sua chegada - ou a esperança dela - nos situa numa hora vestibular e inaugural da história, com todas as suas alvíssaras e todos os seus perigos. Pois, tanto podemos chegar à utopia socrática da "polis" em que os reis são filósofos e os filósofos são reis, como à complicada ingenuidade - se assim se pode dizer - da engenharia conteana da religião da humanidade. Isto é, ao culto de uma axiologia ética, à margem dos valores transcendentais do ser humano e da própria sociedade humana. Os filósofos que trataram da ética - e foram praticamente todos eles - a situam corno a finalidade do saber humano e, pois, da universidade. Ela é a "réussite", o cumprimento da filosofia, da sabedoria. A sabedoria, como queremos todos, é "a coisa" da Universidade. O "ethos", o costume - supostamente o bom costume - é fundado sobre o conhecimento do bom, do belo e do verdadeiro. Isto é a ética em seu alcance final, que é também o alcance final da filosofia, sem o qual não se pode conceber a prática de um comportamento ao mesmo tempo sábio e belo e bom. Heidegger, o reitor maior da filosofia do Ocidente, desde os gregos, convidado a vida inteira para escrever uma ética, nunca realizou o projeto que lhe era pedido. Mas em certa passagem de sua famosa "carta sobre o Humanismo", dirigida e dedicada ao meu saudoso amigo, o filósofo francês Jean Beauffret, ele trata da palavra grega "ethos", encontrada num dos fragmentos heraclíticos. E ao lembrar que "ethos" significa "costume", o costume de viver, sustenta que "ethos" tem a mesma raiz de "olkos" - casa, habitação, estadia. A estadia, a casa, a habitação, como mais tarde em Spinoza, supõe a moradia eterna do ser humano, a eternidade do homem. A ética é, pois a "coisa" da eternidade que carregamos dentro de nós e de nossa história pessoal, como queria Antígona, na tragédia de Sófocles. Como fonte do saber, só a Universidade chega à fundação da sabedoria, à fundação da ética. Esta, senhores professores, é nossa missão. Em nossas mãos está a chave do mundo ético, cujas portas são o próprio pórtico da Universidade. Para concluir, Magnífico Reitor, doutores ilustres da Congregação desta Universidade, o comovido agradecimento do doutor menor que hoje aqui recebe vossa sagração e vossa ordenação. E com ele, minha homenagem comovida à minha terra e à minha gente do Ceará. A esta terra e a esta gente, que guarda, insculpida em bronze, a legenda de sua grandeza heróica, expressa na palavra de Gustavo Barroso: - "enquanto outras regiões do Brasil se orgulham de feitos antigos e riquezas modernas, a glória do Nordeste é como a dos santos e dos mártires, feita de dores e provações". Pois bem: está é a glória maior, a glória dos santos e dos mártires. Por ser temperada de dores e provações, é feita também de esperanças e promissões. E é a única que frutifica e que perdura. Estas palavras foram tudo que consegui tirar da abundância de minha emoção - "ex abundantia cordis" - e da pobreza de meus talentos. Nem me justifico por elas. Justifica-se por mim aquele outro cantador das Ipueiras, Anselmo Vieira, na sextilha de sua viola sertaneja, recolhida por nosso Leonardo Mota: "Pr'eu cantá na sua casa, Meu patrão, me deu licença: Se a cantiga não foi boa, Desculpe Vossa Incelença, Que às vez as coisas não sai Do jeito que a gente pensa". Fortaleza, 25 de maio de 1993 ------------------ ------------------ ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Poeta Grego Nascido no Ceará J.G. Nogueira Moutinho "Eleuteria" em grego significa "liberdade"; É essa a palavra-chave de um dos mais impressionantes livros da poesia brasileira, Peripécia de Gerardo. Seu autor, Gerardo Mello Mourão, com O Valete de Espadas, publicado há mais de uma década, irrompia violentamente contra uma série arraigada de preconceitos em nossa ficção e ensaiava pela primeira vez entre nós uma escrita onírica, supra-real, mágica, que desvendava os íntimos refolhos do cotidiano para afrontar a luminosidade diurna com os traços mais noturnos da criatura humana. A santidade e o êxtase poético eram os dois pólos entre os quais oscilava o pêndulo de sua prosa masculamente liberta de ambages. Na verdade, ante livros como O Valete de Espadas verifica-se experimentalmente o postulado de que nas grandes profundidades da linguagem não há diferença entre poesia e prosa. O romancista violava despudoradamente os pseudo-limites ransitando entre os dois domínios como Lautréamont ou como Rimbaud transitaram: confiantes nos poderes secretos do verbo. Com a sua Peripécia, livro que constitui uma espécie de sequência a O País dos Mourões, Mello Mourão atinge o amadurecimento a que os textos anteriores tendiam: total ausência de efeitos, íntima simbiose do tema com a linguagem, justeza de tom adequada ao enunciado de determinadas circunstâncias estritamente poéticas. No transcurso da leitura é que Peripécia de Gerardo assume a sua função secreta: Sua ambição inconfessada é retomar os grandes sopros épicos do passado, reencetar a tradição aos aedos, que sabiam simplesmente relatar os grandes ciclos aventureiros sem a pretensão de tirar efeitos paralelos da linguagem: a beleza dos seus cânticos estava na razão direta dos seus conteúdo. Este é que infundia infundia no poema a sua beleza, uma beleza toda interior, evidentemente. Mello Mourão pertence genealogicamente à maior árvore tribal do Nordeste brasileiro. Ligados aos Araujo Chaves, aos Martins Chaves, aos Correia Lima, aos Sampaio, aos Vera, aos Bezerra, aos Feitosa, os Mellos Mourões integram um grupo parental que, segundo Oliveira Vianna, "é dos mais poderosos de nossa história, e cuja repercussão sobre as nossas instituições locais de Direito Público - populares e oficiais - foi enorme." Baste dizer que dominaram uma província inteira, o Ceará, terra em que se encontram fundamente enterradas as raízes dessa estranha poesia, dessa forte poesia, dessa violenta poesia elaborada por Gerardo Mello Mourão. Nada há nela porém que se contente com ser regional, pitoresca, folclórica, "paroquial" no sentido que os ingleses dão a essa expressão. O poeta, antes, sabe enlaçar aos elementos telúricos de sua província, largas lufadas de um vento que nasceu na Hélade, soprou a vela das naus descobridoras, ruge em certas estrofes homéricas dos Lusíadas, e varre com um ímpeto maravilhosamente inaugural suas "peripécias": podem assim afirmar que redije "em alto mar entre a madrugada jonia e a madrugada de Maragogi - sudeste do país dos Mourões". Efetivamente, o ar que circula entre os diversos corredores deste labirinto poético é um ar grego. Percorre as galerias do poema "o tornozelo dactilo", de Apolo; o poeta se volta aos serviços de Afrodite e de Persefone; leva a lira de Tibulo a tiracolo; examina o mapa de Eleusis junto ao Ponte Vecchio. Ao contrário do que se poderia temer, o arsenal mitológico não emerge através de truncadas cópias em gesso, mas brilha serenamente como o país ancestral ao país dos Mourões. O descendente longínquo dos facinorosos e rudes navegantes e bandoleiros recorda-se de suas origens místicas e as declinas com a discrição e o orgulho dos fidalgos que se sabiam "filhos de algo". Em Mourão, a força mais atuante não é o passado, mesmo que este seja arcaico; sua poesia é vida, e o que é mais importante, vida não cerebral ou metafísica, mas estuantemente erótica, máscula, latejante, fremente. O fatídico "eterno feminino" guia as mãos do poeta, que escreve encarnado em sua estrutura carnal com a mesma violência de Pero Lopes de Sousa violentando as índias. A presença desse ancestral, celebrado como divindade totêmica do clã, é obssessiva em todo poema. A maneira das litanias, o poeta não o invoca sem réplicas "e de seus bagos venho". As características genesíacas do poema, um poema vincadamente do sexo masculino, espermático, inseminador, estadeiam-se dessa forma, cavalgando o dorso das fêmeas: o poeta tudo incorpora, as suas lembranças mais cruas e mais sublimes, mais ásperas e mais harmoniosas num conjunto único, num movimento lírico espontâneo e ágil, no qual as memórias do clérigo redentorista no Seminário de Congonhas do Campo parecem o "adágio" de uma existência aventurosa, calamitosa, ardente: "há uma raça dos homens e uma raça dos deuses e a raça dos que tocam pelos bosques dos homens as músicas dos deuses". É a esta última que Gerardo Mello Mourão pertence. "Eleuteria" - "Liberdade" é essa efetivamente a palavra-chave da Peripécia. O poeta apresenta-se em todo o transcurso de seu cântico como um ser essencialmente, radicalmente, irremediavelmente livre. Mas a liberdade é amor, ensina o cristianismo de São João e de São Paulo: Mourão tem a suprema coragem de assumir essa terrível dádiva. Por esse motivo, considero um dos mais belos e profundos momentos do livro a referência a uma das místicas de sua especial devoção, a francesa Margarida Maria Alacoque, que ele transforma por mágica verbal em Margarida Mourão, assimilando o êxtase da monja ante o Sacratíssimo Coração a um episódio amoroso vivido quem sabe sob que latitude: "Moreno dois olhos negros / que parecia um Mourão / desses que descem a serra / de perneiras e gibão / com uma rosa no peito / e uma viola na mão: / é dia de dança e festa / da Virgem da Conceição: / pegou a francesa branca / e mostrou-lhe o coração / - ai, gigolôs arrastando / débeis fêmeas pela mão - / ficou a francesa branca / mais branca do que algodão / e Jesus de Nazaré / a carregou do salão / e em Paray-le-Monial / rolaram flores no chão / quando a louca margarida / na desvairada paixão / nas mesmas chamas dEle / acendeu seu coração: / ai, Jesus das Ipueiras / ai, Margarida Mourão!" O mínimo que se pode esperar da crítica responsável, universitária, estilística, que se faz entre nós, é uma análise pormenorizada, estrutural, linguística, semântica, deste texto revolucionário que é Peripécia de Gerardo. Raras vezes a poesia brasileira terá dito tão fundamente o que pretendeu dizer: "com tamanha fortuna quanta / nunca entre amor e morte / alguém passara." ------------------ ------------------ ------------------ ------------------ Gerardo Mello Mourão Carta de Gerardo Meu caro Feitosa: Há quanto lhe devo uma carta? Só Deus sabe. E só Deus sabe como sou ruim de carta. Devo cartas a todo mundo, no Brasil, no Chile, no Panamá, na Argentina, no Peru, nas ilhas e nas antilhas. Devo cartas a Raul na Patagônia, a Paco em San Juan de Porto Rico, a Godo em Viña del Mar, a Joãosinho na China, a um padre na Cochinchina, a Yuko no Japão, a outros na França, na Alemanha, em Portugal. E até no reino dos céus devo duas cartas a Jorge Pérez-Román, que morreu sem resposta a duas cartas e uns desenhos que me mandou, de seu estúdio de pintor num banlieu de Paris, onde era o melhor pintor de seu tempo. Sou ruim de carta. Acontece que, coisa de um mês atrás, passei umas semanas na casa de meu filho Gonçalo, a quem também devo muitas cartas e que é Ministro na Embaixada do Brasil em Assunção. Se você leu um conto meu em que conto a história do Coronel Alonso Artega y Malpartida, já se terá dado conta de que tenho uma velha paixão pelo Paraguai. É o mais incontaminado país da América Latina. Uma espécie de Ceará mediterrâneo, que nem os chins e os coreanos que invadiram a doce cidade de Assunção, com suas lojas de gadgets e bugigangas eletrônicas, conseguem desfigurar. Mas isto é outra história. O certo é que comprei um equipamento de computador com uma impressora a laser. Faz mais de um mês que esta estrovenga eletrônica está em minha mesa sem que eu queira ou saiba enfrentar sua telinha colorida e suas mensagens de files e windows. Um amigo meu, que tem a minha idade, tinha comprado uma igual. Depois de três dias jogou pela janela a engenhoca eletrônica. "Em nossa idade - explic a ele - não conseguimos ter acesso a esses mistérios eletrônicos". Como você vê, na linha de cima saiu um erro na palavra "explica". Meu neto, Antonio Domingos, que tem doze anos, arranjou agora um sujeito para montar a engenhoca. Sabe manejá-la como gente grande. No meu tempo, até para dirigir carro, a gente tinha de tomar aulas de chofér. Eles agora nascem choferando qualquer tipo de carro. Mas em compensação, digo-lhe eu, não sabem montar num jumento em pêlo, nem arreiar um cavalo, nem tirar leite de cabra ou armar arapucas pra pegar passarinhos e engatilhar uma gangorra para pra preá no meio do canavial. Nem outras sabedorias que temos no sangue. Mas isso também é outra história. O certo é que depois de algumas armações de Antonio Domingos, comecei a enfrentar o bicho eletrônico. Este é o primeiro texto que escrevo no computador. Mando-lhe assim as primícias de minha inesperada habilidade. Bater teclado, até que eu sei. Sou datilógrafo razoável e sei vadiar na minha velha IBM elétrica que me serve, e que parece estar olhando para mim com mágoa, ressentimento e ciúme por essa rapariga de "files" e "windows". Sua carta e suas amostras arteiras de composição me provocaram, e aqui estou, olhando meio constrangido para as letras que brotam, como por milagre, no quadrado luminoso. Isto é apenas um bilhete, para dar-lhe sinal de vida. Agora mesmo, em seguida, vou escrever umas linhas sobre sua poesia. Ainda não sei nas teclas deste artefato meio diabólico ou se na velha IBM. De todo modo, guarde estes microsofts word como o primeiro milagre eletrônico de que fui capaz. E entre as coisa que lhe devo, contabilizo aqui seu entusiasmo poe essa caligrafia dos novos tempos e pelas experiências que ela pode oferecer a própria linguagem poética. Mallarmé e Apollinaire, que eram fascinados poe essas feitiçarias gráficas, ficariam loucos se vissem esse pequeno prodígio eletrônico. Pound que jogou com caracteres chineses em seus Cantares, certamente saberia usar desses recursos novos. Eu mesmo, como você pode ver em tantos meus poemas, recorri a alguns deles. Por enquanto, ainda não sei tirar leite dessa vaquinha, com tantas tetas de windows e macetes. Vou ficar por aqui e vou agora tentar imprimir essas bem traçadas linhas. E isto com medo de ao mexer no ratinho, apagar tudo, em vez de imprimir, como aconteceu com as vinte primeiras linhas deste mesma carta. Vamos ficar por aqui e meu abraço não eletrônico, mas de carne e osso. Com o sopro da alma e o músculo do coração. Feitosa: Agora é a sexta vez que eu tento escrever mais um bilhete. A engenhoca é mesmo o triângulo das Bermudas. As letras e as linhas desaparecem nela por artes do cão. Datilografo razoavelmente, até não perco tempo com correções, mas quando vou imprimir, o texto vai para o beleléu na telinha implacável. Ontem, sábado de carnaval, fiz cinco bilhetes para você, que é o estreante desta aventura eletrônica, e o demônio engoliu todos na hora de imprimir. Quando penso que achei a chave da impressão, as linhas desaparecem. Na última tentativa, foi pior, as teclas não batiam mais. Virei, mexi, cutuquei todos os tables, windows e helps e o resultado foi que não consegui mais nem chegar ao exit da tela. Desliguei o monstro da tomada. Estou recomeçando. Ontem, sábado, hoje, domingo de Carnaval, não tenho quem me venha dar uma luz nesta empreitada. Só depois do Carnaval espero um orientador. Sai na tela tudo o que não peço: um jogo de baralho francês com uma dama de copas rindo cinicamente da minha competência ou uma banda de música asiática tocando o hino nacional da Tailândia, onde uma vez tomei chá com o rei Bhumibol e a rainha Sirikit ou o hino patriótico do Nepal onde este pobre nordestino tremeu de frio ao pé do Himalaia e onde se aqueceu contemplando a deusa viva no templo de Katmandu, onde a gente paga 20 dólares para contemplar sua beleza num balcão de madeira, ao lado de um monge vigilante. Mas chega de conversa, vou ver agora se consigo imprimir, para ver se consigo fazer de novo o texto que estava no meio, e que o gato do Samsung comeu antes de entregar à Action Laser. Minha velha e fiel IBM-82 está rindo aqui ao lado da mesa, já não mais enciumada, mas vingada pelo castigo da traição com que a substituo por esta rapariga caprichosa de Microsoft, files e windows. O pior é que cada uma das seis cartas que lhe escrevi é diferente e não consigo reproduzir. O pior é o texto sobre a poesia sua, que estava até